A Andarilha

Era lá pelas redondezas de uma cidadezinha ao norte do Paraná que a andarilha vagava.    Um verdadeiro mistério “ambulante” para todos os habitantes daquele lugar.   Cada qual tinha a sua própria versão sobre este ser.   Fantasma, louca, santa ou bruxa,  ninguém conseguia defini-la apropriadamente.    Ela tinha um nome:  Docha.      E, pelas características físicas que a atribuíam, poderíamos descrevê-la como uma mistura de espanhola, índia ou cigana.    Era muito alta, macérrima, cabelos negros em longas tranças.   Diziam que podia fazer qualquer movimento com seu corpo pois tinha um certo “dom”  de contorcionista.     Andava sempre com vestidos muito franzidos e coloridos e calçando chinelas de couro.   Percorria, sozinha, as fazendas, os riachos, os cafezais, os pomares e dormia em qualquer lugar no verão.  Em tempos de geadas ela podia ser vista abrigando-se nas capelas à beira das estradas  (essas que são construídas em homenagem aos acidentados e mortos no local).   

A maioria dos habitantes da cidade a temia.   Minha mãe se incluía nesse imenso grupo.   Sempre que o assunto Docha  – a andarilha,  aflorava-se em nossa casa, minha mãe empalidecia e nos alertava para ficarmos o mais longe possível da criatura pois podia ser uma bruxa, nos enfeitiçar e fazer conosco sabe lá o quê, etc., etc.     Eu crescia embalada pelas histórias e proezas dessa andarilha e a cada dia  aumentava a minha fascinação por este ser “mítico” errante.     

 Era ainda verão.    O sol estava quase se pondo e uma leve brisa soprava.  Estávamos, minha mãe e eu, na grande varanda da casa da fazenda, alegremente preparando uma grande fornada de  pães.   Então, minha mãe parou subitamente de sovar a massa.  Segui seu olhar e notei que, como encantada, ela fitava na direção do carreador um vulto que se aproximava.     A tez já alva de minha mãe foi tornando-se tão branca quanto a massa que segurava em suas mãos.   Parecia assim um modelo de cera, inerte, petrificado.     Era a Docha, a andarilha, que caminhava lenta em nossa direção.   Não havia engano.  Ela era singular.     E eu, ávida de olhá-la bem de perto, de “verificar” cada polegada do seu corpo, permaneci aí, tentando controlar meu coração que queria saltar pela boca.

 Parando diante de nós,  encarou-nos com seus grandes olhos negros e redondos por longo tempo.    Minha mãe continuava assim como uma modelo de cera.   Finalmente a andarilha disse pausadamente:

- “Estou com o pé sujo,  comi melancia”.

 Com um esforço sobrenatural minha mãe virou-se e trocamos olhares.  E, instintivamente, olhamos para os pés dela.    Estavam imundos.   Era algo quase grotesco, camadas de sujeira marrom avermelhada, proveniente da “terra vermelha” daquele lugar.   Sementes de melancia se misturavam às tiras da chinela e pareciam fazer parte de suas imensas unhas tortas e não menos incrustadas daquela sujeira quase ocre.

 Minha mãe não conseguia dizer uma palavra sequer.    Eu continua a contemplar a Docha !      Passou-se –  não sei quanto tempo –  e finalmente minha mãe murmurou:

- O que deseja ?

- Um copo d’água.

 Tive a nítida sensação que minha mãe levaria algum tempo para sair daquele estado de petrificação.   Então, saí com passos cambaleantes para buscar a água.   Voltei.   As duas mantinham-se cada uma em seu estado.   Para  oferecê-la a água,  aproximei-me o mais que pude.    Que olhos negros e redondos tinha ela !

Fiquei com o copo estendido por algum tempo.  Ela o apanhou e,  numa rapidez estrondosa,  jorrou toda a água entre seus seios !     Virei bruscamente para ver a expressão do rosto de minha mãe imaginando que agora ela desfaleceria !   Não.   Minha mãe ficou ainda mais impassível e pude ouvir estas suas palavras:

- Sente-se Docha.   Apontando o banco branquíssimo da varanda.

- Espere a fornada de pães para que leve um, ainda quentinho.

 A andarilha parecia agora enxergar-nos com aqueles seus grandes olhos negros perdidos na imensidão do mundo.     Começou a abaixar-se vagarosamente até sentar-se no chão com as pernas muitas abertas que ela tinha o cuidado de as ir cobrindo com o seu vestido florido rodado.     E novamente falou:

 - “Estou com o pé sujo, comi melancia”.

 Pela primeira vez pude sentir que minha mãe havia “retornado” ao seu estado natural pois ela olhou-me profundamente e pude ler seus pensamentos.   “Não se atreva a fazer nenhuma pergunta a esta criatura” !    Isto desesperou-me porque queria simplesmente “jorrar” uma dezena de perguntas, tamanha era a minha curiosidade.

 A Docha,  silenciosa como uma gata sonolenta, foi se mexendo, se contorcendo, deslizando-se como uma cobra num areão quente até esticar-se completamente no ladrilho fresco, fechando em seguida seus grandes olhos negros.

 Então caí em desespero total.   O que fazer agora ?    Queria sacudi-la até ela ter qualquer reação, não importando qual.     Queria saber a qualquer custo quem ela era, de onde tinha vindo, o porquê de andar assim sozinha, o que realmente fazia por aí,  em quê ela pensava...

 Os pães assavam.   A andarilha dormia.   Silêncio total.   Novo olhar de minha mãe: “Fique em silêncio e deixe-a dormir” !

 O sol havia se posto completamente.   A noite estava por vir trazendo a escuridão da vida rural...

 O consenso na casa após a chegada de todos da roça foi o de não acordá-la.  A minha aflição chegava quase a limites insuportáveis.   Ainda vi minha mãe embrulhar um lindo e cheiroso pão num guardanapo alvo como a lua e colocá-lo junto às mãos da andarilha.     Entramos todos.   Jantamos (menos eu) e já era hora de dormir.  Pensei imediatamente.   Vou e não vou dormir.   O último olhar de minha mãe leu, de novo, meus pensamentos e me retornou:  “Você não dormirá em seu quarto hoje !”.   Desespero total e irrestrito!    Peguei meu coração que desta vez saltou pela boca afora e joguei-o de volta em meu tórax.

 Fomos todos dormir.   O silêncio era sepulcral.   Onde estão os grilos ?   Na minha mente a frase a me torturar:  Preciso ir lá.   Ir lá eu preciso.     Já não sabia quanto tempo havia se passado.   Ouvi o cantar de um galo ao longe...  Não podia ser que já estivesse amanhecendo...      Escorreguei da pequena cama sobressalente do quarto de meus pais e deslizei-me até a varanda.    A escuridão lá fora agora era parcial.   Aproximei-me trêmula como uma vara verde.     Pude somente ver o guardanapo alvo que embrulhara o pão oferecido.      A Docha  havia desaparecido.        

 Uma coruja solitária no galho do abacateiro piava. 

 Dias depois, ouvi uma senhora,  dona de uma fazenda vizinha,  cochichar para minha mãe na chegada para a missa dominical que a andarilha tinha andado por lá e que somente dizia:

 - “Estou com o pé sujo, comi pão”.

 

4º lugar do "II Concurso de Contos da UniABC"

Cleonice Men da Silva Ramos

out/2000

 

 

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