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A Descoberta
I
A
estação do metrô estava cheia, todos andavam
apressados
como sempre naquele fim de tarde. No meio do vai e vem,
estava Manuela, toda pequena, toda arrumadinha, a espera
do namorado, que nunca chegava no horário em que
combinavam os encontros, mas neste tinha-se a desculpa do
trabalho. E além do mais, Manuela não sabia bem
no que
daria este encontro, talvez o melhor fosse que nem
acontecesse.
Para não ficar ali parada observando as pessoas, que
lhe
pareciam certas do seu destino passarem, foi até o
quiosque da estação que vende revistas e livros,
melhor
ter a companhia da leitura a incerteza dos acontecimentos.
Manuela ficou impressionada por encontrar no quiosque
livros de poesia, da última vez em que ali esteve havia
além das revistas, apenas livros de auto-ajuda e romances
clássicos que ela já tinha lido. Desta vez não
seria
obrigada a comprar nenhuma revista feminina, já que não
se interessava por livros de auto-ajuda; levaria um
daqueles livros de poesia. O problema é que todos aqueles
autores lhe eram desconhecidos: Paulo Eduardo Lacerda
Rodrigues, Noemi Morac, Wagner Rodrigues, Paulo de
Carvalho, Wladimir Silva... Clara Print. Clara, o nome da
mamãe. Manuela pegou o livro e abriu ao acaso:
Poeminha
Em entranhas estranhas seu gosto sumiu
Partiu o perfume agudo em outros olfatos
Seu toque gastou em peles com pouco calor
Pernas ausentes de ardor você abarcou
Em outros ais foi-se embora seus beijos
Da nossa canção só a blue note ficou
Aquela loucura se esvaneceu, sem dor.
Que pena não ter dor de amor
Nem isso você me inspirou.
Ah,
se Manuela estivesse só! Soltaria o riso que bloqueou
nos dentes. Sim, meu querido, "aquela loucura se
esvaneceu, sem dor".
Se os passantes apressados reparassem naquele quiosque
envidraçado veriam uma pequena a sorrir para um livro,
expressando certezas.
Manuela pagou pelo livro, meteu-o na bolsa e saiu
apressada, desejosa de que seu namorado a estivesse
esperando. Não estava. Paciência! Ali não
ficaria, mas
outro trem se aproximou e despejaria mais outra leva.
II
Tranqüilamente
o namorado de Manuela se aproximou. Colou
os lábios nos dela, o que a fez lembrar: "Em outros
ais
foi-se embora seus beijos".
- Tive de terminar um relatório chatissimo.
- Não precisa me dar satisfações, Claudio.
Se você fosse
realmente gentil, teria pelo menos tentado ligar para
dizer que iria se atrasar.
- Não, você não vai começar com sermões.
Vamos! Vamos...
- Espera um pouco. Desde quando eu lhe dou sermões.
Sempre fui a sua pequena, a que aceita tudo...
- Ah! Manuela, você não vai começar uma
cena aqui. Sei
que precisamos conversar, mas não aqui. Claudio pegou
em
seu braço para que ela o acompanhasse.
- Solte-me! Manuela falou entre os dentes.
- Você quer ficar aqui, fique. Respondeu Claudio com
agressividade já dando alguns passos.
Manuela não o seguiu nem com os olhos, observava os
passantes, o melhor é ir para casa também. Dirigiu-se
então para a outra plataforma de embarque, como se nada
tivesse acontecido.
- Pequena, eu nunca te vi assim - Manuela levou um susto,
não esperava ser abordada - você tem razão
de estar brava
comigo. Vamos conversar lá em casa, a gente sempre se
entende.
- Claudio - ela parou e falou com muita calma - eu não
quero ir para sua casa, seus pais não estão lá,
sei bem
como terminará a nossa conversa.
- Quer coisa melhor. Esboçou um sorriso, que não
foi
retribuído.
- Sim, quero coisa melhor.
- Olha que assim eu me ofendo.
- "Pernas ausentes de ardor você abarcou", Claudio.
- O que você está dizendo? Não estou te
entendendo.
Manuela soltou aquele riso que engoliu no quiosque. De
Claudio e para Claudio, em sua cara gargalhou.
III
-
Acabou, meu querido, acabou.
Manuela sempre tão contida, sempre vendo a banda passar
em seu relacionamento, em sua vida, parecia dar seu
grito de liberdade.
- Eu era ainda muito nova quando começamos - prosseguiu
ela - eu quinze aninhos e você dezenove. Você foi
meu
primeiro namorado. Eu não sabia avaliar nada, confundi
paixão com amor. Minha cabeça virou uma bagunça,
acho que
eu não estava preparada para um relacionamento tão
íntimo, que me fez queimar tantas etapas, mas nunca tive
coragem de assumir isso, enfim as coisas já tinham
acontecido. Meu Deus, que bom poder falar!
- Manu...
Claudio queria de alguma forma contê-la, porque os
passantes a observavam, não que ela falasse alto. O certo
é que Manuela irradiava segurança.
- Não me interrompa, Claudio - ela colocou os dedos nos
lábios dele. O que sempre eu tive foi medo. Medo de
assumir que agora eu não sou mais aquela garotinha, que
julgou ter encontrado um príncipe moreno e forte, mas
que
na realidade virou um sapo. Príncipes encantados não
existem.
Nestes quase quatro anos que estamos juntos, você me fez
de tola, até me traiu, você nunca me deu o valor
que eu
mereço. Para você está tudo muito cômodo,
se eu não tiver
a coragem de romper e tem de ser agora, nós possivelmente
nos casaremos, e eu continuarei aceitando tudo.
- Se é assim que você quer, tudo bem. Mas, depois
não
adianta vir .... Claudio tentou dar aspereza a sua voz.
- Você se esqueceu que todas as vezes quem terminou foi
você e quem sempre te aceitou de volta foi eu. Manuela
retrucou rapidamente e continuou - Porque eu me culpava
por tudo e sempre fui muito insegura. Você se aproveitou
disso, você sabia que podia ir e vir, eu não tinha
forças e nem controle de nada..
- Demos um tempo por apenas duas vezes, sempre voltei
porque é você quem eu amo de verdade.
- Ah, ama!? E me deixou no Sábado plantada. Só
ligou no
Domingo com voz de ressaca, desculpas esfarrapadas e para
marcar o encontro de hoje. Caiu na gandaia no final de
semana e quer em plena Segunda-feira namorar. Olha, fica
com teus amigos e "amiguinhas", teu futebol e a cerveja.
Você saiu dos limites e agora é tarde demais. Cansei!
Quero vida nova.
A expressão de Claudio era de alguém assustado,
pela
primeira vez demonstrou-se acuado aos olhos de Manuela.
- Você está apenas irritada, com raiva. Não
é possível
que da noite para o dia você não sinta mais nada
por mim?
- Claudio, a verdade é que: "Aquela loucura se esvaneceu,
sem dor. Que pena não ter dor de amor. Nem isso você
me
inspirou.". Terminamos assim, Claudio.
Manuela deu-lhe as costas e saiu apressada, abrindo
caminho entre os passantes, que lhe pareciam agora menos
apressados, menos certos do seus destinos.
Claudio ficou ali, vendo Manuela ir-se, curioso por saber
que besouro teria picado a sua tão doce pequena, no
mínimo ela conheceu alguém que a fez mudar daquele
jeito.
Já no metrô Manuela abriu a bolsa e pegou o seu
livro,
nada lhe caiu tão bem quanto aqueles versos de Clara
Print.
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