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A
Lenda da Noite e do Dia
Uma história para se ouvir a dois num dia claro de sol à sombra de uma
árvore, ao som de uma caixinha de música ou do barulhinho bom da chuva
batendo na janela de madrugada, ou numa noite estrelada. É o que vou te
contar.
Era uma vez um homem, era uma vez uma mulher. Era uma vez a noite, era
uma vez o dia.
Pela natureza, não se viam. Não se conhece seus rostos, só os seus
olhos, o firmamento: do dia um azul muito claro, e da noite, negros.
Nascidos em pontos opostos, nunca se encontravam, a não ser por breves
momentos de aurora alaranjada, ou do crepúsculo rosa, violeta. Nestes
dias, o céu se tornava um espetáculo e o mundo inteiro sabia que eles
haviam tido contato.
A noite, silenciosa, ficava muda para não acordar quem dormia ou se
falava, falava bem baixinho, sussurrava entre os dentes. O dia, agitado,
nem bem a ouvia em meio aos sons, vozes e pela movimentação frenética
das pessoas que esperavam por ele para tocar suas vidas. Ele subia
veloz, quente, despertando todos do sono, obrigando a sair da cama. Ela
descia mansa, fresca, soprando os olhos pro repouso, preparando o mundo
para amanhecer com seu amado, que fazia o mundo se mover.
O que a noite mais queria era colocar o dia no seu colo para ele sentir
seu descanso, seu aconchego, o amor que paira no silêncio. Ele a
acusava de ser negra, escura, sombria, triste...não entendia que ela se
escondia no azul profundo pra não assustar pela imensidão do seu
alcance, da noite que invade todos os lares, espaços, intensa, que só
se corta pelas luzes artificiais. Não ela. Ela tinha sua própria luz,
mas o dia não entendia que luz nem sempre é sinônimo de claridade,
mas de clareza. Para que ele se assutasse menos e a entendesse melhor, a
noite teve uma idéia: quando todos dormiam, pegou uma agulha de prata e
fez furos em si mesma. Pensou:
"-Assim o dia acreditará que por baixo do pano escuro, sou límpida
e resplandescente".
Mas a noite não se mostrava a ninguém, nem todos podiam vê-la: feria
os olhos. Então, fez furos bem pequeninos. As estrelas.
O dia amanheceu lento naquela data, pra observar a façanha da moça de
vestido preto.
"-Que é isso?", pensou ele.
A noite satisfeita, ansiosa, esperava que o dia finalmente compreendesse
que ela só era escura, sombria e fria para olhos insensíveis, porque
os olhares atentos reparariam que ela era o que vai além dos
buraquinhos. Ele não entendeu, não tinha tempo, tinha que nascer rápido.
E ela...muda.
A noite, como todos os dias, caiu lentamente e concluiu:
"-Vou fazer mais buraquinhos".
E pintou-se de estrelas pequenas e brilhantes, enfeitando o céu como se
fossem pequenos diamantes espalhados em veludo azul, para presentear o
dia quando ele nascesse coçando os cílios. Ele não teve tempo, subiu
rápido e nem viu.
Todas as noites ela repetia a exposição sem cessar, e todos os dias
ele amanhecia depressa, sem olhar.
Ela brincava para passar o tempo. Riscava seu corpo, o que viram alguns
acordados, e chamaram de cadentes. Batizou as três estrelinhas de
Marias, e sua preferida, menorzinha, redondinha e mais brilhante, chamou
de Mariana.
Ele não ligou. Daí, ela tentou um golpe derradeiro: abriu em si um
rombo enorme para que ele a visse verdadeiramente, por dentro. Nasceu a
Lua. Ele? Não reparou, achando que era apenas mais um enfeite que ela
colocava no céu. Coisas de mulher. Acessórios.
A noite então, triste, resolveu dar-lhe um sinal e furou-se em formato
de cruz, o Cruzeiro do Sul, sua tatuagem que apontaria a direção para
os perdidos e que selaria divinamente seu sentimento sagrado e eterno. E
dali pra diante, se manteria aparentemente fria, esconderia os amantes,
protegeria os apaixonados, inspiraria os poetas a falarem de amor, seria
a atmosfera perfeita para romances e encontros, para as grandes paixões.
E todos os dias lá está ela pintada, cansada, subindo e descendo, às
vezes nublada...às vezes ela chora na madrugada, sozinha, a garoinha...às
vezes no nascer ele a acaricia antes que ela vá dormir e então, ela
volta toda pintada.
E lá se vai mais um dia...
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