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"Privatização" dos Banheiros
Toda fumaça, toda bagunça, toda superpopulação e todo o caos moderno começou com Rashid Wattsom Silva, o fabricante de privadas. Muito antes de Austera ser uma metrópole e possuir todos os problemas que as grandes cidades apresentam com seu trânsito e suas filas com seus mendigos e sua luxuria, foi um vilarejo e por este vilarejo as pessoas caminhavam tranqüilas e trabalhavam, por que o trabalho, com excessao dos escravos, as edificava, jamais se ouviu falar em assaltos pelos seus arredores. Rashid veio de longe, era um homem globalizado, possuía a avareza dos turcos, a frieza calculista dos norte-americanos e japoneses e a malandragem dos brasileiros. Bem, Rashid era um homem rico, e passava noites em claro a procura de um projeto que multiplicasse suas cifras. E foi numa feijoada na casa de dona Soraia que a luz lhe clareou as idéias. Após o almoço todos estavam na varanda da casa esperando as tripas terminarem seu trabalho, e de repente Rashid sentiu uma cólica dos diabos, começou a suar frio e, num surto, saiu em disparada, ignorando as gargalhadas dos presentes, em direção ao cagadouro. E o cagadouro era uma casinha de madeira alojada na parte externa da casa, mais precisamente no terreiro, tinha tamanho suficiente para acomodar uma pessoa, em seu assoalho havia um furo que ia dar direto num buraco feito, estrategicamente, na terra para acomodar melhor as excreções. E como era tradição em Austera , todos os meses esses cagadouros eram trocados de lugar no terreiro para evitar o mau cheiro. Não se sabe por qual motivo o cagadouro da casa de dona Soraia na havia sido mudado ainda, podia-se ver as excreções chegando à borda do assoalho e, o cheiro que exalava daquele bostíbulo era horrível, mas Rashid não tinha outra alternativa senão encarar aquele fedor , abaixou as calças mirou mais ou menos o buraco e partiu em direção do mesmo com a respiração presa, e foi neste momento que o mundo estaria por mudar:
- Merda! Como é que vou sair daqui agora?!
Rashid escorregou e caiu sentado sobre toda a merda que transbordava do assoalho do bostíbulo, sua roupa ficou imunda e o fedor, ah meu Deus! , o fedor era horrível, vocês já sentiram o cheiro de uma fossa aberta por dias? , pois esse era o cheiro de Rashid, cheiro de merda. Ele saiu do cagadouro na mesma disparada que o levou até o lugar, ao passar pela sala a seqüência de vômitos e gargalhadas foi intensa e Rashid ficou conhecido pelas crianças como o “Rola-Bosta”.
O acontecimento o deixou traumatizado, e passou dias segurando suas necessidades, chegou até a ficar ressecado, de medo de entrar novamente num cagadouro. O tempo passava e o trauma de Rashid continuava inerte, ele agora passava noites em claro tentando achar uma forma de resolver sua fobia a cagadouros, foi quando Anísio, o escravo que construía jarros de barro para Rashid os vender, chegou com um sorriso iluminado no rosto, e falando pausadamente devido ao fôlego que a corrida, da oficina a casa do senhor, havia lhe tirado:
- Rashid, trago-te boas novas amigo!
- Devem ser boa mesmo! Respondeu Rashid com ar zombeteiro. – Pra vir até minha casa, e me chamar di ammigo. Diga-la , o que te traz aqui?
- Perdoe minha intromissão, sem... PARA,PARA,PARA, esperem um momento e perdoem minha falta de atenção, mas esqueci de citar entre as características de Rashid, lá no começo dos fatos, que apesar de muito rico ele era muito pouco letrado e que aproveitava suas posses para explorar Anísio que, apesar de educado, tinha uma mentalidade muito colonizada o que o fazia dependente de Rashid. CONTINUEMOS ENTÃO...aviso prévio, mas é que trago ótimas noticias, noticias essas que podem solucionar seus problemas com os intestinos, e dar muito conforto as casas de Austera.
Rashid olhou nos olhos de Anísio, refletiu um momento com seus olhos brilhantes e depois com a boca cheia de água indagou:
- Proporcionar conforto? Exprique melhor.
- É que durante essa semana, construí um assento especial que pode ser usado dentro dos cagadouros de todos os lares de nossa humilde cidade.
- Intao vamo vê qui procaria é essa logo! E no caminho ce vai falndo como arrumo tempo para se mete quessas coisa.
E o tempo gasto normalmente com o percurso até a oficina foi aparentemente encurtado pelas desculpas que Anísio tentava em vão fazer o patrão engolir, mas esse sempre tinha uma contra argumentação a lhe fazer. Chegaram a oficina Anísio mostrou o engenho para o chefe que tentou fazer cara de que sabia usar o equipamento mostrado, mas mesmo assim, e com cara de quem pergunta para ser gentil, perguntou:
- Diga como usa então?
- Basta que senhor fique sentado sobre o vaso e force para que os excrementos caiam diretamente na água que fica no fundo do assento!
- Pois deixe que eu faça o teste, seu lesado.
Anísio retirou seus olhos de perto do assento e foi ate a porta da oficina observar o dia. Em sua cabeça milhares de idéias circulavam ele sabia que aquela era uma idéia magnífica, afinal oferecer conforto as casas era absolutamente algo extraordinário. E levando seus pensamentos ao extremo das virtudes ouviu o resmungar de Rashid que acabara de sair do assento:
-Hei Anísio! Nunca vi idéia mais imbecil que esta.
- Mas, imbecil porque patrão?
- Ora seu estúpido, no final essa geringonça vai acabar transbordando igual o cagadouro.
Anísio sem entender o por que de seu chefe estar usando de tanta arrogância em suas palavras, e foi ate o vaso para entender o que aconteceu.
- Mas o senhor estava mesmo precisando de banheiro em patrão! E com o dedo tapando sua respiração Anísio foi se aproximando dos destroços. – Meu Deus, você nem jogou água!
- Que água infeliz?
Anísio explicou o sistema hidráulico para Rashid que, boquiaberto, escutava atentamente suas explicações, pediu para o patrão jogar a água, mostrou o caminho feito pelos excrementos até a fossa. Os olhos de Rashid brilhavam, ele imaginava os investimentos, e melhor que isso os lucros.
- AHHHHH, os lucros!
- O senhor disse algo?
- Não, não, eu, é , eu, eu só estava pensando alto?
- E então senhor Rashid como iremos fazer negocio?
- Descarado! Alem de ficar inrolando o trabalho com essa porcaria ainda qué fazer negocio comigo? Fica sabendo que essa porcaria é mais minha que tua seu sem vergonha.
- Então eu não te empresto minha idéia.
- Pois não queria mesmo se merda!
Rashid saiu como quem tinha sido apunhalado, foi tropeçando nas pedras indignado com o ocorrido “ – onde já se viu um merda crecendo o zoio no que é meu, ora se eu num acabo com ele!”. A noite na cama sonhava com os retornos que poderia ter com o novo vaso e incessantemente rosnava para as paredes do quarto: - Tenho que acabar com aquele bastardo! Passaram duas semanas desde o acontecimento Rashid deu inicio a primeira parte de seu plano, e no dia seguinte uma manha fria com uma fina garoa tomando conta de Austera, podia-se ver um aglomerado de pessoas reunidas no centro da praça atrás de uma fita amarela e preta Rashid se aproximou e olhar para a cena começou a chorar e lamentar:
- Ele esta morto, homem! Dizia d. Soraia. Não há nada que possamos fazer.
Rashid encomendou a missa com grandes velas e placas de bronze para ornar a sepultura, placas que traziam inscritos “ Aqui jaz um homem exemplar e trabalhador magnífico.”.
Dois dias depois Rashid encomenda dez tornos de barro e contrata homens para trabalhar em seu novo engenho. A primeira remessa fabricada foi um sucesso, mas não o esperado, Rashid contratou especialistas para o auxiliarem na venda do produto e foi instruído para acrescentar seus produtos as peças de teatro e a subornar os homens mais belos e ricos de Austera para fazerem a divulgação do seu engenho por onde passassem. Encomendou a cabeça de alguns homens que tentavam copiar sua idéia. Mais tarde fez doações caridosas aos políticos da cidade para que eles podessem aprovar uma lei que fosse conhecida como lei dos diritos autorais e patentes. Os anos passaram e agora Rashid aparecia em discursos e eventos populares anunciando que o seu invento era uma propriedade privada. E foi esse nome que a população adotou para o invento, a privada. E o tempo passou como um desesperado, Rashid investiu em tecnologia, e apoiado ao aumento de seus lucros foi vomitando dinheiro em todas as áreas da ciência e logo apareceram os tornos e fornos elétricos que produziam uma quantidade excessiva de privadas por dia, uma quantidade tão grande que os estoques começaram a ficar encalhados em seus galpões, Austera deu inicio ao que eles chamaram de revolução social, um verdadeiro sistema de vida foi padronizado Rashid não estava mais sozinho, existiam agora as companhias de tudo, tudo o que era fútil, dispensável e vicioso era vendido pelas chamadas fabricas. Mas haviam menos pessoas para comprar do que os produtos fabricados, Rashid investiu em biotecnologia e desenvolveu vacinas que garantiam a vida dos que nasciam e que multiplicavam a quantidade de consumidores pelos arredores de Austera. E a cidade encheu e encheu e encheu tanto que tudo era fabricado desde livros e noticias, até alimentos e água, Austera deixou de ser aquele lugar de se viver e passou a ser o hospício lotado por ônibus que transportam números, por pessoas que não vivem senão para consumir e manter aceso o espírito Rashidiano, porque Rashid morreu há anos mas nos deixou aqui o montro que ele criou, e nos vivemos aqui em Austera sobre os escombros de um mundo que poderia ser melhor mas, para manter viva sua propriedade “a” privada, insiste em negar seus filhos que não querem e não agüentam mais tanta fumaça e tanto caos só para cagarem conforto.
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