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Bloqueio-Crônico-Espiritual
Minha
capacidade de concentração está comprometida.
Faz algum tempo que isso acontece...
Há algum tempo, acho que há alguns bons meses,
eu não tinha tanta dificuldade em escrever, em colocar
no papel peculiaridades do dia a dia, encantamentos do meu interior,
episódios cômicos e trágicos... tenho medo
dessa falta de concentração, essa falta do que
dizer, essa sensação de "Não sei como
dizer". Juro que não quero me tornar uma analfabeta
espiritual, mas, analfabeto é aquele que nunca teve a
possibilidade de sair de sua ignorância escrita... eu
já escrevi, não digo que bem, nem que ruim, mas
aprendi de alguma forma a esboçar pensamentos e emoções
numa superfície qualquer. Então o caso não
é analfabetismo, talvez eu possa chamar isso de "bloqueio-crônico-espiritual".
É uma nova doença inventada por mim, garanto que
é grave... porque sou eu que sinto, portanto, posso diagnosticar
o que sinto. Nenhum médico seria capaz de descobrir minha
moléstia, só eu, porque sou eu que sofro de falta
de concentração.
Essa falta... de concentração pode ser causada
por um vírus feroz, que acomete as pessoas fúteis,
materialistas, preocupadas apenas com posições
sociais e financeiras... pessoas... comuns, preocupadas com
o mundo "moderno". O "vírus-da-pessoa-comum"
é devastador porque nos cega de tal maneira que não
assimilamos as coisas que estão a nossa frente, como
o sorriso do dia, a estrela cadente, a nuvem em forma de animal
ou seres identificáveis, a borboleta que poucas vezes
se vê na cidade, o olhar carinhoso de um desconhecido,
o agradecimento por uma gentileza feita por nós, o bom
humor, o sentimento puro e singelo, a canção ao
fundo, o Bom Dia dito com alegria, o telefonema de um amigo
que não se tem notícias há tempos, o intervalo
entre uma música e outra, a sonoridade do mar, o fechar
os olhos tranqüilamente e sonhar. Estamos tão cercados
por pessoas "doentes" que acabamos nos contaminando,
aliás, esqueci de dizer: é contagioso. Pessoas
comuns são aquelas que levantam pela manhã reclamando
por terem de levantar-se cedo, tropeçam no chinelo por
ainda não terem aberto os olhos e tomam o banho e escovam
os dentes sem olhar-se profundamente no espelho. Apertam suas
gravatas ou calçam seus saltos altos e tomam um café
obrigatório e rápido para não perderem
tempo. Tempo. Tempo é o elemento chave. Ultimamente é
sobre ele que passo horas a pensar, é sobre ele minhas
mais profundas divagações antes do sono acometer-me
e levar-me para o outro lado do tempo: o sonho. O tempo é
minha grande preocupação porque ele ameaça
meus projetos de vida rica em experiências... ele é
vilão de toda essa história, mas depois trato
dele com maior atenção e meticulosidade porque
há muito o que falar sobre esse tal... vilão e
mocinho.
Agora estou falando da minha "doença", a doença
que estraçalha as sensações mais prazerosas,
porém, as mais escondidas que, se não forem devidamente
sentidas, passam despercebidas e secam nossa alma que precisa
ser regada constantemente por sensações que parecem
pequenas, mas são capazes de provocar estímulos
internos e reflexões sobre nós mesmos... é
por meio dessas reflexões, que se dão por meio
de sensações, que nos tornamos pessoas especiais,
não pessoas comuns... cada um de nós precisa ser
pessoa especial, ser comum é ser como todos os outros,
não quero ser como todos os outros, ninguém deveria
querer ou se conformar com a condição de "pessoa
comum" . A tal doença invade as entranhas dos sentimentos
desprovidos de interesse, desinteressados em trocas levianas;
essa moléstia ataca os detalhes do cotidiano, detalhes
que são esquecidos por serem considerados antipráticos
ou desproporcionais ao tempo que vai e não nos espera.
Lá vem o TEMPO novamente invadir uma conversa que não
é dele... ainda não. Deixarei o tempo de lado,
pelo menos por um instante, só o momento em que escrevo
e dentro dessa escrita tento angustiosamente buscar explicações
ou, quem sabe, a cura para o meu bloquei-crônico-espiritual.
O mundo me leva a concluir que refletir sobre a profundidade
de nosso ser é perca de tempo e tempo é tempo...
corre desesperadamente e, se não o acompanharmos, ele
vai e nós ficamos... junto a ele vão todos os
artifícios que tentam justificar o mundo moderno e, se
ele leva tudo com ele, ficamos a mercê de nós mesmos.
E é por isso que precisamos ser fortes, fortes o suficiente
para agüentar a responsabilidade de ir contra o TEMPO.
Mas, não ir contra o tempo todo o tempo, apenas nos momentos
em que precisamos alimentar o espírito e o reeducarmos,
fazermos um processo de "reciclagem" para que não
esqueçamos o que realmente é belo e sincero.
Aos poucos estou conseguindo me concentrar.
Aos poucos volto a ter o domínio das palavras que saem
de dentro de mim, despretensiosamente, mas querendo me convencer
de que tenho salvação.
O que há de mais especial dentro de meu espírito
sofrido por estar sedento de atenção está
se manifestando e me dizendo uma coisa muito importante que
preciso relatar logo antes que me escape as palavras que minha
alma esboça nesse momento: o TEMPO é o causador
da minha doença... porém, só ELE é
o antídoto contra essa moléstia que tanto me persegue.
O TEMPO cura. Certamente já ouvimos esse clichê,
dentre outros como: o tempo cicatriza feridas, o tempo cura
as grandes quedas, dar tempo ao tempo é a melhor maneira
para se reconquistar coisas perdidas, inclusive a doçura
das palavras benditas, as sensações singelas que
sentimos todos os dias e não deixamos que elas se manifestem,
os detalhes que estão a nossa frente e negamos sua presença,
a concentração em nós mesmos para, após
breves momentos de reflexão tornarmos seres racionais
um pouco melhores... por que não especiais... devemos
sempre buscar o especial.
Após um mergulho em mim mesma descobri que todo meu conteúdo
adquirido com tanto esforço continua aqui... bem aqui,
estava mesmo escondido, empoeirado e esquecido, mas resolvi
pedir auxílio ao TEMPO antes que o bloqueio-crônico-espiritual
tomasse conta definitivamente de mim. Entramos num acordo: ele
continua a correr como sempre fez, porém, eu pararei
por alguns segundos durante todo o meu dia para ouvir o que
eu tenho a dizer a mim e, mesmo que ele não me espere,
num futuro não muito distante, onde a idade cronológica
e a maturidade do meu espírito me levarão, vou
encontrá-lo, quando ele estiver cansado, e ficaremos
juntos, pois, quando chegar lá saberei que O TEMPO SÓ
CORRE PARA AQUELES QUE NÃO O SABEM APROVEITAR... SÓ
A MATURIDADE ENSINA QUE O TEMPO SOMOS NÓS... nós
somos tempo que passa e leva consigo os progressos de uma humanidade
doente que não sabe olhar para si e não pensa
em ser especial, só alguém comum, cheia de valores
ilusórios e dispensáveis.
Meu espírito ainda tem muito o que aprender. Depois de
muito refletir consegui encontrar uma possível resposta,
mas ainda não sei como alcançá-la porque
vivo o conflito interior, o conflito entre o que o mundo me
pede e o que eu posso dar.
Mas, estou feliz por saber que voltei a me concentrar.
Reconheço que não estou curada e, provavelmente,
este tratamento se estenderá por muito tempo. Sinto estar
no caminho certo, o caminho que me leva às pessoas especiais
e me afasta das pessoas comuns.
Continua... quando eu tiver um pouco mais de TEMPO...
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