Bolinha de Sabão

 

Antes eu gritava num deserto
e me ouvia
agora sou um oco
o canto mudo da cotovia
um louco
solto no vento,
que timidamente, assobia
E voa lento,
cego, surdo
sem sonho, um eco
uma alegoria,
o trapo da fantasia
que cria que amor existia
e que o Carnaval era o ano todo
bastando despir do corpo
as amarras da apatia.

Sou o último trago na bituca
e a dose no fim da festa
sou a bússola sem ponteiro
e um barco no nevoeiro,
a ruga da tua testa.
Sou o ventríloquo, a marionete
o fulano que a multidão empurra
pra dentro do metrô
inerte.

A folha na crista da onda
o papel de bala no asfalto cinza.
Sou eu a bolinha de sabão
que no assopro, desvia do caminho
e puf...explode...implode
vira gotinhas d'água,
no choque do calor interno
com a atmosfera fria, a maria-mole
a massa sem vinho, sem graça, no inverno.

Pro atleta, a bola do jogo de futebol.
Pro motorista, o ponto-morto, a banguela.
Pra gravidade, o bêbado na ladeira,
e pra um dançarino,
a nega-maluca presa na canela.
Sabe a rolha do champagne?
Bem essa! Voa longe
se batendo nas paredes,
mas sobe, sobe feito rojão
pra vir a queda...
direto pro chão.
Só sai se for varrida ou guardada como tesouro,
o souvenir
de um momento inesquecível
de uma comemoração,
o memorável estouro...puf...lá se vai...
a bolinha de sabão.

 

 

Andréia K.

 

 

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