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O
Cidadão do Mundo
Eu sigo caminhando sozinho por esse asfalto triste e sujo. Sou, fui e sempre serei o lobo solitário, o que caminha só. Num mundo interligado e desesperadamente louco, eu preferi me omitir, não que eu seja um covarde, ou que sinta medo do que supostamente é novo, mas eu sinto não poder seguir a crença de que a maquina é perfeita, e não concordo que ela seja apenas fria. Eu creio no seu desgaste, e posso ver cada mentira que a compõe, cada morte que a decora qual a beleza de fetos mergulhados em formol. Que obstáculos intransponíveis, quais doenças incuráveis terão, olhos meus, que verdes ainda até que se complete o ciclo vital dessa subespécie que anda tão desgastada quanto os mecanismos, e empapada pela ferrugem que cai da ciência que tomamos por mãe. Eu sigo descontrolado, mas hei de manter-me eu; um homem, o que caminha só, aquele que creu ser possível mudar e confiar no amor como antídoto, ou, melhor dizendo, como o verdugo desta mentira ideológica que nos manteve calados por anos
a fio, sentindo fome, e sorrindo ao falso. Que nos manteve esperançosos por algo que já estava tão corrompidos quanto nossos dias. E assim eu termino, mas assim comecei:
- Não sei como te falar, cara. Mas eu troquei uma idéia com a Julia e... ela confirmou tudo.
- Tudo, o que?
- Aquelas idéias que estavam rolando. Sei que é difícil, mas ela confirmou.
- Nossa, cara num brinca. O que ela te falou?
- Ó veio, não sei nem como te falar, viu meu. É... é embaçado meu camarada.
- Fala, carai! Vai fica embaçando agora irmãozinho, fala logo caramba.
- Firmeza, firmeza. Tipo, tá ligado, tava eu a Ma e a Julia né cara, e a gente tava voltando da escola numa boa ta ligado, mas a Ma já tinha me falado do que tava rolando. Mas até aí véio, ta ligado, num sabia de nada mano.
- Mas você não tinha falado que a Ma tinha te falado.
- Então. Só que eu achava que era boato e tal, você ta ligado né mano pra fala dos outro sempre tem um monte de bico principalmente se for pra falar mal.
- É, isso é verdade.
- Mas então. A gente tava vindo para casa e tal, aí a Julia, sua mina, entrou nesses assuntos e tal. Aí eu pensei “porra, é minha cara vê o que ta acontecendo” – foi então que ela confirmou tudo e com as mesmas palavras que a Ma e todo mundo tinha me falado.
- E o que que ela falou?
- Que era verdade.
- Eu sei cara, ela já me contou.
- O que ela te falou?
- Que no dia do aniversário da sua mina, foi ela e a Jéssica no banheiro, e tipo eu não sei quem agarrou quem, mas rolou um beijo entre as duas. Eu prefiro acreditar que a Julia não é o que parece ser, né mano, ce sabe que é foda né camarada, porra eu já to com a mina faz uma cara e não da para acreditar ta ligado.
- Bom, pelo menos nessa parte ela não mentiu. Mas ela também ficou com a Soninha, ficou não, teve um caso. E você ta ligado quem é a Soninha, mano, aquela mina não vale porra nenhuma, você sabe muito bem que por menos de um tirinho na farinha ela trinca com qualquer um. E tipo, a Julia, sua mina, confirmou que deu uns beijo com ela. Embora, ela tenha dito que foi só uns beijinho, já vieram me falar que a própria Julia tinha contado uma historia, ta ligado, de que um dia ela e a Soninha foram dá um role pra fuma um baseado, certo, e tipo elas tavam sem um lugar para cola de boa, aí camaradinha, como elas tavam sem um QG firmeza as duas foram lá no motel Jumbo. Agora, caraio! Duas mina vão num motel fuma um baseado! Que papo é esse?!
- Quem te falou isso?
- Não importa quem falou, o que importa é que ela confirmou que ficou com a Soninha.
- Essa idéia da Soninha, nem me impressiona tanto certo. A Ju já tinha me falado que tinha dado uns beijo com ela, mas eu não acreditei, achava que era invenção dela. Agora o que me deixa indignado é esse lance da Jéssica. Aquela mina ta fudida, véio!
- Fudida porque? Não to entendendo.
- Ela fica com essas idéinha, mas eu sei uma pá de podre dela, certo, e vou fala tudo, ela não devia ter falado da Juliana.
- Bom, cara, se você sabe de podridão dela sua cara é falar pro namorado dela, certo. Mas isso não ameniza a culpa da Julia, certo. A sua mina ficou com outras minas e isso é tudo.
- Firmeza eu vou ver o que faço.
Depois eu parei de colar muito com os dois, a Marcela parou de ficar trocando idéia com a Julia, elas falavam só o necessário. E os anos passaram, eu e a Ma nos casamos compramos uma casinha, e a vida ia rolando daquele jeito. Não tínhamos tido filhos, quando a porcaria aconteceu. Poxa cara, eu via a gente na televisão eu via beleza naquela mulher ela era tudo, eu trabalhava por ela, sonhava com ela e ficava contando as estrelas das noites lindas do meu bairro, elas não eram muitas, mas eram minhas e toda noite eu contava vinte e três nos últimos dias eu contei vinte e quatro. Elas bruxelavam e sorriam para mim e convidavam eu e a Ma para ir ter com elas. Eu queria ir ter com elas, eu falava em comprar um foguete para chegar lá no céu e viver nas estrelas.
Mas a Ma nem me escutava, e dizia que as estrelas são dos ricos, e que pra gente pobre como eu só restava mesmo o asfalto sujo. Droga ! Eu ia ser rico um dia! Porra, pra que diabos eu trabalhava o dia inteiro, a Ma me deixava triste, sempre que eu mais precisava dela ela não estava do meu lado, eu chorava baixinho no canto da cama à noite, e quando sentia o rancor me agoniar eu gritava em silencio, para não acordar os vizinhos. Decidi que iria me dedicar a leitura, comprei livros e dos melhores, lia e relia e nada. Minha solidão só aumentava; aquelas páginas de livros, aquelas malditas paginas de livros. Eu agora via o mundo diferente, mas eu estava certo de que podia lutar. Ia fazer de tudo pela Marcela, escreveria estórias, faria com ela fosse a mais bonita do mundo afinal eu nasci para ela e caminhava por ela.
Certa noite eu cheguei em casa e me tranquei no quarto a ler, e nesse momento eu percebi que não era verdade, Marcela não me amava ela me excluía. Passei a seguir os seu passos e descobri toda sua podridão. Marcela era uma prostituta. Ela dormia com outros povos e por dinheiro. Aquele amigo lá do começo participava, alias ele comandava o bordel. Eles trepavam juntos, Ele, Ela, Julia e todos. Ela parecia uma aldeia todos passavam por ali e lhe arrancavam gemidos. Deus do céu! O céu nunca mais foi o mesmo para mim, as estrelas estavam lá, mas eu não e nunca chegaria a elas. Marcela nunca havia mentido, elas não eram para mim, elas eram para os ricos assim como Marcela. Minha sina era trabalhar e dar luxo para Marcela, para depois ela distribuir para os seus magnatas toda a sua gostosura comprada com meu suor. Definitivamente eu desisti. Sai de casa, lancei minha mochila as costa e peguei o caminho.
confiar no amor como antídoto, ou, melhor dizendo, como o verdugo desta mentira ideológica que nos manteve calados por anos a fio, sentindo fome, e sorrindo ao falso. Que nos manteve esperançosos por algo que já estava tão corrompidos quanto nossos dias. E você pode me ver se quiser, eu estou sempre vagando pela beira das estradas, roupas sujas mochila ou um saco nas costas observando você passando de carro e ainda escravo da prostituta que te consome. “A sua pátria”. sou um cidadão do mundo. Sacou?
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