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Cidade dos Mortos
É
manhã. Mais um dia começa na cidade dos mortos. Como de costume, as
almas sentam-se sobre suas lápides a espera do anjo que anuncia a chegada
de novos moradores com o toque ritmado do tambor. As almas que chegaram
recentemente ficam acuadas, sem sair de cima de seus túmulos. Como
moradores recentes não sabem como se comportar. Ninguém diz uma palavra.
Vindo de uma das ruas da cidade, um velho, vestindo um terno antigo usando
chapéu de feltro. Caminha calmamente. Por onde passa abre caminho
entre as almas. O silêncio evidencia o som de suas passadas no caminho
feito com pedras. Ele se aproxima dos recém chegados. Todos olham para o
velho atentamente. As outras almas juntam-se em volta dele. Ele tira um
cachimbo do bolso de seu paletó, ascende-o, dá uma tragada e se dirige
aos novos moradores.
--
Esta é a cidade dos mortos! O cemitério, se preferirem. É neste lugar
onde tudo termina... ou começa. É neste lugar onde, depois da morte,
queremos viver de novo. Pensamos no que fizemos, no que deixamos de
fazer... um lugar onde as pessoas se encontram... onde, infelizmente, as
pessoas se encontram... Aqui tem gente rica, gente pobre e indigente.
Os
novos moradores olham assustados para ele. O velho dá mais uma tragada no
cachimbo.
--
Pelos próximos sete dias não poderão falar. Até sabermos se ficarão
conosco ou se irão embora definitivamente. Agora, vocês precisam
conhecer nossa cidade. Se repararem, daquele lado estão as lápides mais
antigas. Já deste outro, são de moradores mais recentes, como vocês.
Apesar da neblina e da garoa fina, que sempre cai no final da tarde,
costumamos ter manhãs ensolaradas, acompanhadas de uma brisa fresca e um
silêncio, que só é interrompido por pessoas que, às vezes, visitam
nossa cidade.
Ouve-se
um som de tambor em forte compasso. Um murmúrio invade toda a cidade. O
anjo da morte anuncia a chegada de mais um corpo. O velho tira o chapéu e
num grito chama a atenção de todos.
--
Hoje vamos receber uma criança!!
Murmúrio
entre as almas.
--
Um menino de dez anos. Vítima da indiferença. Morreu sozinho, embaixo do
viaduto da Saudade! -- As almas mais antigas, em forma de coro, repetem
suas palavras como um eco que se perde no silêncio.
Essa
criança desde os cinco anos não vê o pai. A mãe largou-o nas ruas e
sumiu. O menino foi recolhido
esta madrugada pelos agentes funerários da prefeitura. Estava encolhido
atrás de uma pilha de tijolos, seus braços enrijecidos, estavam abraçados
às pernas. Tinha os olhos vidrados. Não pediu ajuda, pois sua voz já não
saía. Não se levantou, porque o corpo já não se mexia. Sua fome
era tanta que nem ao menos percebeu seu pequeno corpo congelando.
Morreu agonizando de fome e de frio. Como ninguém reclamou o corpo, ele
será enterrado como um indigente. O velho abaixa a cabeça e diz em voz
baixa.
--
Será como nós, que fomos sepultados sem ter ninguém para nos
encomendar, sem ter ninguém para nos despedir...
Uma
das almas se levanta e caminha em direção ao velho.
--
Outro dia acompanhei o enterro de uma mulher. Sinto-me bem andando no meio
dos vivos. Chovia muito. A família, toda reunida, parecia não se
importar com a chuva que caía. Alguns se surpreendiam em ver seus
parentes... No meio de tanta tristeza havia algo diferente. Pessoas que há
muito não se viam se reuniam agora pra sepultar um dos seus. Senti aquela
dor estranha de novo...
Uma
outra alma grita distante.
--
Elas passam a maior parte da vida separadas e só se encontram aqui!
Toda
vez é a mesma coisa, a dor que eles sentem não pode mudar nada e estão
condenados a viver com isso. Como pode uma pessoa desejar a morte depois
de morto?
Uma
das almas senta-se em seu próprio túmulo. Nunca diz uma palavra. Toda
semana seu pai vem visitá-la. Em vida se encontraram poucas vezes. Ele
vem, coloca flores, limpa a lápide. Ela se aproxima, tenta abraçá-lo...
tenta fazer com que ele saiba que está ali. Mas o pai só faz arrumar as
flores e chorar. Seu pai, na sua frente e não pode tocá-lo. Assim é a
cidade dos mortos. Uma mulher vai à direção do Velho.
--
O menino não pode ser enterrado como indigente. Vamos pedir ao coveiro
que antes de enterrá-lo, reze um Pai-Nosso primeiro.
O
velho respondeu friamente.
--
O nosso amigo é duro como pedra. Fez tantos sepultamentos que seu coração
se transformou numa lápide de mármore. A morte não lhe atinge mais.
O
velho tinha razão. O coveiro estava morto como eles. Não fazia mais
diferença de quem estava sendo enterrado. Ele abre a cova, deposita o
corpo e cobre com terra.
O
som do tambor volta a encher a cidade. Ao longe, entre as ruas de jazigos
vem o coveiro. Tem o aspecto rude. Carrega uma pá nos ombros, anda
devagar, com a cabeça baixa fumando seu cigarro filado de alguém, como
de costume. Aos poucos ele se aproxima. As almas que estão em seu caminho
se afastam, só o velho permanece no lugar. O coveiro encara-o.
--
Vamos... sai daí. Tenho uma sepultura pra cavar!
O
velho se afasta. O coveiro limpa o terreno, empunha sua pá cortante e
finca-a no chão, começando a cavar. Só se ouve o som da pá abrindo a
terra. Todos observam atentamente. Depois de algum tempo o velho puxa
conversa.
--
Para quem é a sepultura, coveiro?
O
coveiro tira o boné, limpa o suor na testa, o coloca novamente e continua
a cavar.
--
Não importa pra quem seja, velho. Estou aqui pra cavar. Faço isso a vida
toda. É sempre assim. Abro a cova. Deposito o corpo e cubro com terra. Não
importa quem está sendo enterrado. É o fim de todos, não é?
O
velho não desiste. Pigarreia e tenta novamente.
--Sabia
que essa sepultura é para uma criança?
O
coveiro pára de cavar por um instante.
--
Criança?
--
Um menino de dez anos.
--
Se tivesse falado antes, não teria aberto uma cova tão grande.
O
velho se irrita com o desdém do coveiro e se afasta. Quando ele vê o
velho desaparecendo entre as almas, pára por um instante de cavar. Era
uma sepultura para uma criança. Uma criança de dez anos. Idade de seu
filho. Tenta lembrar-se dele, mas não consegue. A última vez que viu o
menino estava com poucos meses de vida. Mas por que pensar nisso agora?
Tinha um buraco pra cavar.
As
horas foram se passando e todos observavam atentamente o coveiro, que não
disse mais nenhuma palavra. Assim que terminou de cavar, sentou-se,
colocou a pá de lado e esperou. As almas, em torno dele, também ficaram
em silêncio.
--O
que vocês estão olhando? Vão embora! Deixem-me em paz!
O
sol que banhava a cidade se foi, dando lugar a uma neblina densa e úmida.
A cidade ficou encoberta por uma névoa branca. As ruas, agora, parecem
surgir do nada. A cidade não tem mais começo, nem fim. Somente existe o
que nossos olhos podem enxergar.
Ouve-se
novamente o som fúnebre do tambor. Murmúrio entre as almas. O coveiro
olha para a rua e não vê nada. O velho reaparece da neblina fumando seu
cachimbo. Olha fixamente para a rua vazia. O coveiro levanta-se e apóia
seus cotovelos na pá suja de terra. De repente surgem, do meio da
neblina, dois funcionários da prefeitura. Carregam um pacote que mais se
parece com um saco de estopa. Os dois funcionários carregam o corpo do
menino como se estivem fazendo a coleta de lixo. É sábado. Para eles, não
deveriam estar ali, e sim, jogando futebol ou tomando uma cerveja no bar
do Ceará. Mas tinham que estar ali. Apressam-se em chegar para poderem ir
embora mais rápido, tinham ainda outros corpos para carregar. Ao chegarem
próximo à sepultura eles o colocam no chão e saem.
--A
encomenda está aí, Tião.
Assim
que os dois funcionários desaparecem na neblina o velho se dirige ao
coveiro.
--
É preciso que alguém reze pela alma desse menino. Ele sofreu muito na
vida. Precisa ter um descanso merecido.
O
coveiro arrastando o pacote até a sepultura.
--
Mas quem vai rezar? Não veio ninguém com ele.
O
velho insistindo.
--Você,
coveiro. Você pode rezar.
--
Eu não conheço esse menino. O que vai adiantar eu rezar por ele?
--
Você tem um filho, coveiro.
--
Não. Não tenho, não.
O
velho fuma seu cachimbo, se aproxima mais do coveiro.
--
A idade desse menino é a mesma do teu filho.
O
coveiro se irrita com a insistência do velho.
--
Isso não faz diferença! Eu não conheço esse menino. O fato de ele ter
a mesma idade do meu filho, não muda nada.
Silêncio
total. Todos olham para o coveiro que rebate:
--
Depois que uma pessoa morre, ela não existe mais. O que fica é a carne
que apodrece como um pedaço de madeira quando é enterrado. O corpo se
mistura ao lodo. Não tem mais volta.
As
almas começam a pedir insistentemente para que o coveiro reze pelo
menino. O coveiro não vai rezar. Ele não sente nada por essa criança. E
mesmo que sentisse ele faria o que faz sempre. Afunda a pá com mais força
na terra e atira sobre o buraco, enterrando tudo o que sente junto com o
corpo. Está acostumado a fazer isso. Anos e anos fazendo a mesma coisa.
Enterra, depois de anos retira os ossos para liberar mais sepulturas, para
ele são apenas ossos. O coveiro perde a paciência.
--
O que está acontecendo com vocês?!
O
velho olha nos olhos do coveiro e diz friamente.
--
Tire os trapos que cobrem o rosto desse menino e descubra você mesmo.
Um
silêncio invade toda a cidade. O coveiro ao descobrir o corpo do menino,
viu calçado em meio a folhas de jornais velhos o rosto pálido, com os
olhos vidrados e sem vida de seu filho. Ele tenta fechar os olhos do
menino com a mão, mas estes insistem em permanecer abertos, olhando para
ele. Como se mesmo depois de morto reconhecesse o pai. Ele olha o corpo e
nada diz. Permanece estático. Todas as almas em silêncio esperam o
momento do pai cair em prantos por seu filho. Esperam que o coveiro se
sinta culpado por não poder fazer mais nada. Querem uma redenção através
do coveiro. Ele ainda tem chance de viver. Elas não. O velho quebra o silêncio.
--
O que foi coveiro? Não vai rezar pelo seu filho?
--
Não posso...
--
Não pode? É a sua chance de dar conforto a ele. Seu filho terá o
descanso que nós não podemos ter.
--
Eu sei, mas...
--
Mas o quê?
--
Esse corpo é do meu filho. Mas não sinto nada por ele.
Todas
as almas viram de costas para o coveiro e explodem num grito de dor e
desespero. As almas, que não podem chorar, gritam incessantemente. O
coveiro que nada sentia, de novo não tinha nenhuma emoção. Seu peito não
dói. Seu estômago não gela. Suas pernas não estremecem. Ele sabe o que
deveria sentir, já viu milhares de vezes, todos os dias, mas não
consegue sentir nada pela criança. Vê seu filho morto em sua frente e
nada acontece. Tentou se lembrar de quando carregava ele nos braços, mas
só se lembrava das centenas de filhos de centenas de pais que sepultou
sem sentir absolutamente nada.
--
Estou mais frio que o corpo de meu filho. Quem foi que morreu afinal? Ele
ou eu?
As
almas silenciam-se. Tornam a olhar para o coveiro.
--
Não posso enterrá-lo assim, velho. Preciso sentir algo por ele.
O
coveiro, que nada sentiu, sentou-se ao lado do filho depositado na cova
aberta. Ficou olhando para o corpo do menino. A tarde de neblina se foi,
dando lugar a noite fria e escura. Ele, depois de passar toda a sua
vida evitando qualquer possibilidade de sentimento, lamentou-se por não
conseguir de volta o que havia perdido, nesses longos anos que passou
fazendo somente o que sabia fazer: Abrir covas, depositar corpos e
cobri-los com terra.
O
tempo passou, minuto a minuto. A noite mais longa de todas. Todo o tempo
do mundo em apenas doze horas. Finalmente o dia amanheceu e o coveiro não
conseguiu rezar por seu filho. Uma noite toda não foi suficiente para
trazer de volta aquele pai, aquele humano que já não existia mais. A
noite fria a úmida se foi, dando lugar ao brilho e ao calor do sol de
domingo. O velho se aproxima do coveiro.
--
O dia já está nascendo. Enterre seu filho, coveiro.
Dirigindo-se
as outras almas.
--
Vamos! Afastem-se!
O
coveiro sai de dentro da cova do filho, pega sua pá e começa a
enterra-lo. Aos poucos todas as almas vão desaparecendo pela cidade. A pá
parece silenciosa desta vez, a terra cobre todo o corpo do menino num silêncio
profundo. O coveiro finca uma cruz de madeira e escreve “Meu filho”.
Coloca a pá sobre os ombros, enxuga o suor da testa e vai embora, sem
olhar pra trás, pela rua principal da cidade. Deixando o velho segurando
o menino pela mão.
--
Esta é a cidade dos mortos, menino. O cemitério, se preferir...
Os
dois caminham até desaparecerem entre as lápides da cidade, banhadas
pela luz do sol da manhã de domingo.
FIM.
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