CIDADE DOS MORTOS

  

 

De Simone Alessandra

e

Alex Moleta

 

 

  PERSONAGENS:

 

 COVEIRO

FANTASMA

CORO

VÁRIAS ALMAS

 

(Primeira Imagem: Pessoas com os corpos retalhados e enterrados conversando)

 

PRÓLOGO

 

A cena se passa num cemitério. Almas estão espalhadas por todo os lugares em meio aos túmulos. Todas quietas, distantes. A postura das almas reflete o comportamento das pessoas vivas isoladas umas das outras. Almas também vão compor um Coro. Um fantasma fará a função do Corifeu. O texto é dito tendo como fundo o som de tambores.

 

CORO – Esta é a cidade dos Mortos.

              A cidade onde se vive.

 

              Aqui, descobrimos verdadeiramente quem somos.

              Aqui, as palavras saltam da boca,

              Confessamos que em vida não amamos

              E amaldiçoamos a vida que foi pouca.

 

              Tudo isso em vão.

              Pois a vida que desperdiçamos

              Agora vive em baixo do chão.

 

FANTASMA – Está é a cidade dos mortos! O cemitério, se preferirem. É neste lugar onde tudo termina... ou começa. É neste lugar onde, depois da morte, queremos viver de novo, pensamos no que fizemos, no que deixamos de fazer... um lugar onde as pessoas se encontram... onde, infelizmente, as pessoas se encontram... aqui tem gente rica, gente pobre e indigente. Se vocês repararem, daquele lado estão, as lápides mais antigas de nossa cidade. Já, deste outro, são de moradores recentes. Apesar da neblina e da garoa, que sempre cai no final da tarde, costumamos ter manhãs ensolaradas, acompanhadas por uma brisa fresca e um silêncio, que só é interrompido por pessoas, que às vezes, visitam nossa cidade. (pausa) Hoje, vamos receber uma criança. Mas não uma criança qualquer. Vamos receber hoje, o filho do nosso coveiro. Um menino de dez anos. Uma vítima da indiferença. Morreu sozinho, embaixo do viaduto da Saudade.

 

CORO – Sozinho, embaixo do viaduto da Saudade. (O coro formado pelas almas sussurra e propaga a fala como se fosse um eco que se perde no silêncio)

 

FANTASMA – Desde os cinco anos não via o pai. A mãe o largou nas ruas e sumiu. O menino foi recolhido esta madrugada pelos agentes funerários da prefeitura. Estava encolhido atrás de uma pilha de tijolos, seus braços abraçando as pernas. Tinha os olhos vidrados. Não pediu ajuda, pois sua voz já não saía. Não se levantou, porque o corpo já não se mexia.  Sua fome era tanta que nem ao menos percebeu seu pequeno corpo congelando.  Morreu agonizando de fome e de frio. Como ninguém reclamou o corpo, ele será enterrado como um indigente. Será como nós, que fomos sepultados sem ter ninguém para nos encomendar, sem ter ninguém para nos despedir...

 

Uma das almas fala ao Fantasma.

 

ALMA – Outro dia acompanhei o enterro de uma mulher. Sinto-me bem andando no meio dos vivos. Chovia muito. A família, toda reunida, parecia não se importar com a chuva que caía. Alguns se surpreendiam em ver seus parentes... No meio de tanta tristeza havia algo diferente. Pessoas que há muito não se viam se reuniam agora pra sepultar um dos seus. Senti aquela dor estranha de novo...

 

CORO – Elas passam a maior parte da vida separadas e só se encontram aqui.

 

FANTASMA – Toda a vez é a mesma coisa. A dor que a gente sente não pode mudar nada e estamos condenados a viver com isso.

 

ALGUÉM DO CORO – Quero viver do novo. Qual o motivo desse sofrimento se não temos mais um corpo? Se não deveríamos mais sentir dor?

 

ALMA – Que sentimento é esse, que nos come por dentro? Que nos faz desejar a morte depois de morto?

 

OUTRA ALMA – Meu pai vem toda semana visitar meu túmulo... Em vida nos vimos poucas vezes... tenho tanta vontade de abraçá-lo... Chego bem perto dele. Tento segurar sua mão, tento fazer com que saiba que estou ali, do seu lado. Mas ele só faz arrumar as flores... Meu pai, na minha frente, e não posso tocá-lo...

 

CORO - Esta é a cidade dos mortos.

              A cidade onde se vive.

 

CORO – Vivemos rodeados de pessoas, e somos completamente sozinhos.

 

FANTASMA (para o coro) – Com esse menino será a mesma coisa.

 

CORO –Não vou pedir ao coveiro

              Que antes de enterrá-lo

              Reze por sua alma primeiro.

 

FANTASMA – Ele não fez isso conosco. Por que faria isso com ele?

 

CORO – É um menino.

              É seu sangue.

  Não merece ser enterrado como um desconhecido.

 

FANTASMA – O nosso amigo é duro como pedra. Fez tantos sepultamentos que seu coração se transformou numa lápide de mármore. A morte não lhe atinge mais.

 

UMA OUTRA ALMA – Nosso coveiro está morto como nós. Quando fui enterrado, minha mãe, rezando abraçada ao caixão, não queria se afastar. Ele, frio como uma pedra, afastou minha mãe com um dos braços, e com o outro empurrou meu caixão até a cova cobrindo-o com terra sem dizer uma palavra.

 

 

CENA

 

Tambor começa a soar. Entra em cena o coveiro. Tem o aspecto rude. Carrega uma pá nos ombros. Enquanto o coveiro caminha as almas que estão na sua frente se afastam, o fantasma é o único que permanece no lugar.

 

CORO – Aí vem o coveiro.

            Aí vem aquele que nada sente.

            Aí vem o coveiro.

            Com sua pá fria no ombro.

            Aí vem o coveiro.

Que não vive mais o instante presente.

 

COVEIRO (para o fantasma) – Vamos... Sai daí. Tenho uma sepultura pra cavar... (o coveiro começa a cavar)

 

FANTASMA – Para quem é a sepultura, coveiro?

 

COVEIRO – Não importa pra quem seja... Estou aqui pra cavar e enterrar... (pausa) Faço isso a vida toda. Vocês sabem disso! É sempre assim. Abro a cova, deposito o corpo e cubro com terra. Não importa saber quem está sendo enterrado. É o fim de todos, não é?

 

FANTASMA – A última pessoa que vimos quando morremos foi o coveiro.

 

CORO – A última pá de terra antes da escuridão total.

 

COVEIRO (para de cavar e se dirige ao coro) – Vocês devem reclamar com Deus, não comigo! É a vontade Dele... (pausa) Apenas faço o que ninguém mais quer fazer. As pessoas morrem porque morrem, apenas isso. (ele volta a cavar. Pausa longa. Só se ouve o som da pá na terra).

 

FANTASMA – A sepultura que você cava é para uma criança...

 

COVEIRO – Criança? (pequena pausa) Se você tivesse falado antes, não teria aberto uma cova tão grande. (continua a cavar)

 

FANTASMA – Você não se importa de enterrar uma criança?

 

COVEIRO – Por que me importaria? A morte atinge qualquer um. Tanto faz homem, mulher, velho ou criança. O meu trabalho é o mesmo. Não devo sentir nada por ninguém. Apenas abro a cova, deposito o corpo e cubro com terra.

 

CORO (como um eco) – Abro a cova.

              Deposito o corpo

              E cubro com terra.

 

FANTASMA – Você não tem filhos?

 

COVEIRO – Filhos? (pausa) Acho que tenho um menino. Tem dez anos, eu acho.

 

FANTASMA – E onde está o seu filho?

 

COVEIRO – Não sei... Mora com a mãe. (ele para de cavar um instante) O nome dele é... (tenta se lembrar, mas não consegue)...como é mesmo o nome dele? ...não me lembro. (volta a cavar) Tenho que terminar isso aqui. O menino está melhor com a mãe do que comigo. Ela fazia questão de me lembrar disso.

 

O coveiro termina de cavar. Neste momento ouve-se um som fúnebre de um tambor. Dois funcionários da prefeitura carregam o corpo de uma criança. Estes são seguidos em cortejo pelas almas. O coveiro espera pacientemente apoiando os cotovelos no cabo da pá. Enquanto a cena corre os funcionários depositam o corpo e saem de cena.

 

FANTASMA - Nesta noite fria, aproximando-se em cortejo, sob a garoa fina, o corpo do menino. Carregado pelos agentes funerários. Prestes a ser enterrado. Enrolado em panos ele se aproxima de sua próxima morada.

 

CORO – O ser humano é assim...

 

FANTASMA – Vive pra morrer...

 

CORO – e morre pra viver...

 

FANTASMA – Se importa somente com o que pode agarrar com as mãos... E quando vai pra sepultura...

 

CORO – E quando vai pra sepultura

            Leva somente rancor, amor e ternura.

 

FANTASMA – E aqui vai um menino.

 

CORO – Pobre menino.

 

FANTASMA – Morreu sozinho, embaixo do viaduto da Saudade. (narrando) O filho... morreu sem ter tido tempo de sentir rancor, nem amor e nem ternura. E esperando o corpo numa paciência rotineira: O pai... Aquele que plantou a semente, agora, a deposita na terra novamente sem a possibilidade de frutos.

 

O coveiro, como faz todas às vezes, arrasta o corpo até a sepultura para enterra-lo.

 

FANTASMA – É preciso que alguém reze pela alma dele. O menino precisa ter um descanso merecido e não ficar como nós, eternamente acordado.

 

COVEIRO – Mas quem vai rezar pra esse menino? Não veio ninguém com ele.

 

CORO – Você, coveiro. (todos sussurrando repetem )

              Você pode rezar

              Para que ao menos esse menino

              Possa na sua sepultura, descansar.

 

COVEIRO – Eu não conheço esse menino. O que iria adiantar eu rezar por ele?

 

FANTASMA – Você tem um filho, coveiro.

 

COVEIRO – Não. Já tive um. Não tenho mais...

 

FANTASMA – A idade deste menino é a mesma do teu filho.

 

COVEIRO – Isso não faz diferença. Eu não conheço esse menino. O fato de ele ter a mesma idade do meu filho não muda nada. (pausa) Depois que uma pessoa morre, ela não existe mais. O que fica é a carne que apodrece como um pedaço de madeira quando é enterrado. O corpo se mistura ao lodo. Não tem volta.

 

CORO – O que fica é a carne que apodrece,

              Como um pedaço de madeira quando é enterrado.

              O corpo se mistura ao lodo.

              Não tem volta.

 

FANTASMA – Por esse menino você tem rezar, coveiro.

 

CORO – Por esse menino você tem que rezar.

              Por esse menino, sim...

              Reza, coveiro, por esse menino você tem que rezar... (o coro continua repetindo como um eco que ressoa)

 

COVEIRO (vai na direção ao coro) – Não vou rezar por ninguém! Eu não sinto nada por esta criança. E mesmo que sentisse alguma coisa, eu faria o mesmo que faço sempre. Afundo minha pá com mais força na terra e atiro sobre o buraco, enterrando o que sinto junto com o corpo.

 

FANTASMA – Nós nunca te pedimos nada coveiro! Nunca reclamamos de nada! Você retira os ossos de nossas sepulturas sem nenhuma consideração. Joga-os em fossos com centenas de ossos, ossos que já tiveram vida, que já andaram pelas ruas...

 

COVEIRO – Você disse tudo. Já tiveram, não tem mais. São ossos apenas, e eu preciso liberar mais sepulturas. Esse cemitério está ficando sobrecarregado. As pessoas morrem cada vez mais hoje em dia.

 

O coveiro volta ao corpo e coloca-o na sepultura.

 

FANTASMA – Reze por esse menino coveiro. Só desta vez... É um menino, coveiro...

 

CORO – Reze, coveiro...

 

Neste momento um silêncio invade a cena. O som do tambor, agora soa baixinho como as batidas de um coração. O coveiro olha em volta e vê todas as almas olhando para ele, sussurrando para que ele reze. As almas vão se aproximando do coveiro.

 

COVEIRO - O que está acontecendo com vocês? (olha para todas as almas) Por que tanta insistência? (Silêncio. Só o tambor permanece. )

 

O som do tambor, no ritmo do coração, vai acelerando e aumentando de intensidade. O coveiro descobre o pano sobre o corpo do menino. Silêncio total.

 

FANTASMA – Ao descobrir o corpo do menino. O coveiro viu calçado, em meio a folhas de jornais velhos, o rosto com os olhos vidrados do seu filho.

 

Ele olha para o corpo e nada diz. Permanece olhando-o. Estático. Um longo silêncio toma conta da cena. O coveiro olha e não tem nenhuma reação.

 

FANTASMA – O que foi, coveiro? Não vai rezar para o menino.

 

COVEIRO (sem expressão) – Acho que o menino é meu filho...

 

FANTASMA – Então, coveiro, reze pelo teu filho.

 

COVEIRO – Não posso...

 

FANTASMA – É a sua chance de dar amor e conforto a ele. Seu filho terá o descanso que nós não podemos ter.

 

COVEIRO – Eu sei, mas...

 

FANTASMA – Mas o quê, coveiro?

 

COVEIRO – Esse corpo é do meu filho. Mas... eu não sinto nada por ele.

 

Neste momento todas as almas viram as costas para o coveiro e lamentam-se. Elas se curvam de dor por perceberem que o coveiro não é capaz de sentir nada, nem a morte do seu próprio filho.

 

CORO – Ao ver o corpo do filho inerte no chão.

            O coveiro, que nada sentia,

            Mais uma vez, manteve fechado seu coração.

 

FANTASMA – E o coveiro que nada sentia,

            Quando queria, não teve emoção.

 

COVEIRO – Eu quero, mas não consigo. Eu não sinto frio no estômago. Não me dói o peito. Por que ao menos minhas pernas não amolecem. Eu não consigo sentir nada por esta criança. Eu sei o que devo sentir, mas não sinto. Eu o vejo morto, na minha frente e nada acontece...

 

CORO – Meu peito não dói. Meu estômago não gela. Lágrimas não me vêm aos olhos. Tudo passa, mas nada fica em meu coração...

 

COVEIRO – O coveiro olhou o pequeno corpo e pela primeira vez, quis sentir a dor da perda. Tentou se lembrar de quando carregava o filho nos braços. Mas só se lembrava das centenas de filhos de centenas de pais que sepultou sem sentir absolutamente nada. 

 

CORO – Meu filho está frio e isso não me afeta. Minha vontade é de arrancar meu coração e fazê-lo pulsar com as minhas próprias mãos...

 

COVEIRO –Estou mais frio que o corpo do meu filho. Eu não posso enterrá-lo assim. Eu preciso sentir algo por ele.

 

 

 

EPÍLOGO

 

 

Nesse momento o coveiro se posiciona ao lado do corpo do filho e permanece estático.

 

COVEIRO – O coveiro, que nada sentiu, sentou-se ao lado do corpo do filho. Depois de passar toda a sua vida evitando qualquer possibilidade de sentimento, lamentou-se toda a noite por não conseguir de volta o que havia perdido, nesses longos anos em que passou fazendo somente o que sabia fazer: abrir covas, depositar corpos, e cobrir-los com terra.

 

FANTASMA – O coveiro não conseguiu rezar pelo seu filho. Ficou lá, sentado, esperando que alguma lembrança, por mínima que fosse, trouxesse de volta aquele pai, aquele humano que havia se perdido. O tempo passou minuto a minuto. A noite mais longa de todas. O coveiro não mexeu um músculo. Permaneceu olhando o corpo do filho. A noite fria e úmida se foi, dando lugar ao brilho e ao calor do sol da manhã.

 

CORO – Esta é a cidade dos Mortos!

              A cidade onde se espera.

             

Esperava-se que tudo fosse diferente.

Que o coveiro mudasse o que era.  

Que, desta vez, vivesse o presente.

 

O fantasma se aproxima do coveiro.

 

FANTASMA – O dia já está nascendo. Enterre seu filho, coveiro.

 

COVEIRO – O dia já está nascendo. É verdade... (ao fantasma como uma súplica) Eu senti alguma coisa, pelo meu filho, durante a noite? Diga-me que eu senti algo por ele...

 

FANTASMA – Não, coveiro. Você não sentiu absolutamente nada.

 

O coveiro pega sua pá e começa a enterrar o filho. Aos poucos todas as almas também vão desaparecendo. O coveiro olha para o túmulo do filho, coloca a pá no ombro e sai. O fantasma coloca uma flor no túmulo do menino e observa a saída do coveiro entre as lápides.

 

FANTASMA (para a sepultura do menino) – Esta é a Cidade dos Mortos!

 

O fantasma sai de cena restando o túmulo do menino em meio aos demais túmulos.

 

 

FIM.

 

 

 

E-mail: ciafatidicos@zipmail.com.br

            ciafatidicos@uol.com.br

 

Coordenação do Projeto: LUIS ALBERTO DE ABREU e ANTÔNIO ARAÚJO

Cena a partir da observação das pessoas nas ruas e das impressões de cada um sobre a visita até a cidade de Mauá.

Projeto de pesquisa - Estrutura das peças de Teatro NÔ Japonês.

 

Texto escrito em processo colaborativo, sob direção de Simone Alessandra para o Núcleo de Direção e Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André.

 

Dezembro / 99

 

 

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