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DESTINO
FATAL
A tarde caía sem pressa... O clima quente e o céu
límpido combinavam com a calmaria da vida interiorana.
De repente, sem mais nem menos, um homem sobe no
pedestal de uma estátua, que homenageava o fundador
daquela pequena cidade de Novas Caldas, agarra-a pelo
pescoço com o braço esquerdo e com o direito agitando
o
chapéu no ar, a voz em tom de discurso, abusa da
filosofia.
- Todos estão dormindo, amigos! A vida é uma mistura
de
sonhos com pesadelos, acreditem! Perante a eternidade a
vida é só uma fração de segundos;
e digo mais!...
- Quem é ele?
- Um professor. Professor Antunes!
- Professor? - ela olhou novamente para aquela figura
decadente de homem - não pode ser!
- Pois acredite! Formado em direito. É poeta, escritor
romancista e além disso é poliglota. Está
inativo, é
claro, nem poderia mais trabalhar, devido ao seu
problema. Pirou de vez...! Ficou maluco. Mas ainda ajuda
a muitos estudantes com seus exercícios de casa, isto
é,
quando está sóbrio, porque além de louco,
ele bebe,
sabe? Fica caído aí pelas calçadas até
que a polícia o
recolhe e o leva para casa.
- Ele tem família? Indagou Bárbara, já
muito curiosa.
- Na cidade, só uma irmã mais velha, viúva
e aposentada
que, na medida do possível,
ainda cuida do moribundo.
- Que decadência!
- Toda mente humana está sujeita à loucura,
depende da carga emocional que recebe...
Ele teve seus dias de glória; foi homem culto e
respeitado; amante das mulheres mais bonitas da cidade;
e hoje...? Ora, elas fingem que nem o conhecem!
- Pobre homem!
- Ele visitava a nossa casa. Tinha uma grande
estima pelo meu tio. Os dois eram muito amigos;
parceiros inseparáveis! Até ao dia daquele terrível
acidente que os separou para sempre.
- Acidente?
- Os dois caçavam cotias nos penhascos da serra, como
era de costume. Era temporada de caça. Uma vez por ano
o
Governo liberava a caça na região em decorrência
do
aumento desta espécie de roedores que devastava as
plantações. Estavam no despenhadeiro que se precipitava
para o Rio das Caldas. Parece que o meu tio se aproximou
muito do penhasco, provavelmente atraído por um grupo
de
banhistas que nadavam no rio, pisou numa pedra solta e
rolou para o precipício. As pessoas lá embaixo,
assistiram apavoradas, quando um homem tentava, a
qualquer custo, segurar o outro pela mão. Ele não
teve
forças o suficiente e o meu tio despencou sobre as
pedras...
Terminado o breve relato, Antônio tomou-a pelo braço
para prosseguir ao passeio, mas ela o deteve.
- Que tal sentarmos um pouco?
A sombra da figueira realmente era convidativa, e a
praça bem conservada, permitia a ambos um vislumbre
romântico nas flores perfumadas dos jardins que se
estendiam por toda a praça.
Ela era linda, 22 anos, cabelos lisos e negros, lábios
carnudos e um corpo invejável! Mas o que o impressionava
mesmo era a sua inteligência; sua capacidade de perceber
e entender as coisas. Naquele dia, ela parecia muito
curiosa. Ele a olhava tentando descobrir o que ela
estava pensando. Ela, como se sentisse o olhar
interrogador do namorado, voltou-se para ele:
- Que estranho!
- Como? - olhou à sua volta como se procurasse o motivo
para aquela exclamação e viu quando o maluco,
já
proferido o seu discurso, se retirava abanando o chapéu
no ar - está falando dele?
- Pode ser só uma intuição, mas há
algo de "mistério" em
suas palavras. Como disse mesmo que ele se chama?
- Professor Antunes, mas você só está impressionada.
Não
o conhece ainda! As pessoas daqui já estão acostumadas.
Ele é assim mesmo! Não fala coisa com coisa...
às vezes
recita poemas ou canta de madrugada nas ruas e...
Bárbara tirou um pedaço de papel da sua bolsa
e o
ofereceu a Antônio. Era um poema intitulado Versão
do
amor fatídico, sem assinatura.
-Leia isto, querido! Vi este homem hoje pela manhã,
quando saí à rua para comprar revistas. Ele deixou
cair
este papel ao atravessar a rua e entrar em um boteco. Ia
devolve-lo, mas percebi que lá dentro havia outros
homens bebendo cachaça e, como era só um poema...
resolvi guardá-lo comigo.
***
O
mundo me deu de "um tudo"
Me fez bravo, me fez forte
Mas cobriu-me a alma de luto
Hoje me queixo da sorte
A
vida que me inspirava
Luz do dia, sul a norte
Também já me preparava
Um amargo sabor de morte
Morte
abrupta da matéria
À mim findou-se o espírito
Amada e doce, Valéria
Poção do amor fatídico
***
Antônio
dobrou o papel e o devolveu à Bárbara - Valéria
era a esposa do meu tio. Deve ter sido ele quem escreveu
o poema.
- Porque o amigo guardaria o poema?
- Como já disse, os dois eram muito amigos!
- O quê aconteceu com a Valéria?
- Ah, essa é uma outra história trágica
... ela morreu
num incêndio. Logo que chegaram da lua-de-mel, meu tio
comprou um sítio afastado da cidade. Um retiro de
férias. Estavam arrumando as coisas por lá num
fim-de-
semana quando o pior aconteceu! Meu tio resolveu ir à
uma vila próxima comprar sementes, mas ela preferiu
ficar cuidando do jardim. Não se sabe como, mas uma
palhoça que antes servira de galinheiro pegou fogo e
ela, na tentativa de salvar o seu cãozinho de estimação
que dormia lá dentro, ficou cercada pelas chamas ...
foi
horrível! Muito doloroso para ele que depois disso nunca
mais voltou ao sítio.
Antônio pôs-se a relatar os pormenores, desde quando
o
seu tio Inocêncio conhecera à Bárbara até
àquele
casamento que tão pouco durara. "Conhecera-a na
capital
quando lá defendia a sua tese de mestrado. Foi paixão
à
primeira vista.Ela tinha fascínio pelo interior e em
menos de dois meses estavam se casando na capela daquela
pequena cidade de Novas Caldas."
- E o Professor...? Compartilhou desse momento?
- Não, esteve viajando. Divulgando o seu livro recém-
lançado. Chegou após alguns dias, ainda a tempo
de
felicitá-los.
Naquele dia, não se falou mais no assunto. À noite,
dançaram num baile e saíram madrugada à
fora. A Lagoa da
Prata era um dos pontos mais românticos, onde os casais
mais apaixonados sentavam-se sobre as pedras e perdiam-
se entre luas muito belas, afastados das luzes
artificiais da cidade.
No dia seguinte, acordaram ao meio dia e, durante o
almoço, ela quis saber onde morava o Professor. Ele riu,
mas ela explicou que seria para devolver o poema. Ele
achou graça da sua persistência, mas prometeu levá-la
ao "maluco" logo ao entardecer.
A casa de D. Maria Antunes era simples, porém, muito
arrumada. Ela os recebeu com muita satisfação
e já foi
logo parabenisando o Antônio.
- Disseram-me que ela era bonita, mas não sabia que era
tanto! Quando se casam?
- Por enquanto só namoramos - respondeu Antônio
sorrindo, enquanto Bárbara agradecia a gentileza - mas
e
a senhora, como vai?
- Estou bem, filho. A que devo a honra?
- Gostaríamos de falar com o Professor, ele se encontra?
- Sim, e hoje está num ótimo dia. Até tirou
a barba, que
há tempos... - entra nesse momento o Professor Antunes.
D. Maria, meio desconfiada, pede permissão e os deixa
a
sós com ele com o pretexto de passar um café -
com
licença, fiquem à vontade!
- Ora, ora, a quem temos aqui! Vamo-nos sentar! Mas diga
lá como vão os estudos na Capital? Quase não
vem mais à
cidade natal, se bem que estou vendo um bom motivo...
- Apresento a minha namorada, Bárbara. Trouxe-a comigo
para conhecer a nossa cidade.
- É muito bonita! A Capital tem suas flores; seus
encantos...
- Obrigada! - respondeu Bárbara, um pouco corada.
Depois de uma conversa descontraída, onde o Professor
parecia a pessoa mais lúcida do mundo, Bárbara
lançou
uma pergunta que, para ele, soou como uma bomba!
- Esteve no Hotel São Pedro em junho de 95, Sr. Antunes?
- Como? - o Professor olhava-a fixamente, mas agora
calado, baixando a cabeça devagar, sem desviar-lhe o
olhar.
- Agora, sem barba, reconheço o senhor. Eu o vi com a
Valéria Alencar.
- O Professor fechou os olhos. Parecia estremecer por
dentro!
- Desculpe Professor, minha namorada só está um
pouco
curiosa...
- Conheci a Valéria por intermédio de minha irmã
mais
velha. As duas trabalharam juntas e ela visitava a nossa
casa - tornou Bárbara tirando o papel da bolsa e o
oferecendo ao professor - o senhor esteve na minha casa,
Professor! A Valéria o apresentou à nossa família
como
hóspede do hotel que ela e minha irmã gerenciavam.
Por
aquela época a minha irmã recebeu uma proposta
de
trabalho no exterior, saiu do hotel, viajou e perdeu o
contato com a Valéria. Uma vez, quando falávamos
por
telefone, minha irmã comentou que havia ligado para o
hotel e que não souberam informar o seu paradeiro.
Disseram apenas que ela demitira-se do emprego e que
tinham informações imprecisas de que tinha se
casado e
mudado para o interior, sendo...
- Saiam daqui!
- Só queremos esclarecer... - insistiu Bárbara.
- Sumam daqui! - gritou o Professor.
Antônio tomou Valéria pelo braço - voltamos
depois. Ele
está nervoso - e saíram se desculpando, enquanto
D.
Maria, já na porta da sala, tinha duas lágrimas
correntes no olhar.
Desceram calados a Av. Holanda de Barros e chegaram à
Praça Central. Sentaram-se no primeiro banco. Agora ele
a encarava, e era "todo" interrogação.
- Querido, me desculpe! Eu tinha que provoca-lo...
descobrir algo, entende? Não te contei sobre minhas
suspeitas porque talvez você não concordasse em
cutucar
o homem.
- Eh, ele ficou uma fera! Você e essa sua mania de
detetive, hem? Mas agora, quem está curioso sou eu com
essa história. Que tal ir me contando tudo o que sabe?
- Eu ainda não sei, mas acho que estamos na pista. Sabe,
a Valéria era uma pessoa incomum. Uma vez, ela chegou
em
nossa casa muito nervosa, havia brigado com sua tia que
era "contra" ela morar sozinha. Órfã
de pai e mãe desde
os cinco anos, ela morava com outra tia que era casada
com um troglodita e este, quando bebia, espancava-a sem
dó. Aos quinze anos, sofreu uma tentativa de estupro
por
parte deste bruto e saiu de casa, preferindo não
denunciá-lo à tia. Foi morar com outra tia viúva
e seu
inferno continuou. As suas primas não a aceitavam e
brigavam todos os dias. Aos dezoito, resolveu morar
sozinha, indo contra a vontade da tia que jamais
concordou com a sua decisão.
Antônio não tinha mais dúvida de que estavam
enterrados
em uma história de mistérios. Naquela mesma noite,
quando viam TV, receberam a visita inesperada do
Professor que mal se segurava nas pernas de tão bêbado
que estava. Trazia um bilhete amarelado e amassado na
mão.
- Por favor - dizia ele chorando - me ajudem! Não posso
mais conviver com essa culpa!
Eles acomodaram o Professor numa poltrona e tiraram o
bilhete da mão estendida do moribundo e o leram
imediatamente. "Querido, me perdoe! Não mereço
o seu
amor. Estou grávida do seu melhor amigo e só vejo
à
minha frente uma única solução: Um palito
de fósforo e
um litro de gasolina. Que Deus tenha piedade de mim."
- Foi tudo por minha culpa... - soluçava o professor.
-
Conheci a Valéria no Hotel São Pedro quando lá
estive
hospedado por uma semana. Foi a primeira vez que me
encantei de verdade por uma mulher... Achei-a
excepcionalmente interessante. Ficamos juntos aquela
semana inteira, mas ao final, ela me disse que éramos
apenas aventureiros e que cada um seguisse o seu
caminho. Não me dei por convencido e pretendia procurá-
la assim que retornasse da viagem... A grande surpresa
foi encontrá-la casada com o meu melhor amigo. O
constrangimento foi muito grande para nós. Ele não
sabia
o que acontecera e ela... baixava os olhos diante de
mim. Imediatamente, inventei outra viagem e desta vez
não pretendia voltar mais a esta cidade.
Quando soube da tragédia retornei; consolei o meu amigo
e não acreditava que ela fosse uma suicida. Um ano
depois ele foi procurado pelo novo dono do sítio que
achara um envelope fechado dentro de um livro que ficara
por lá. O seu caseiro o havia guardado no sótão,
junto
com outros papéis discos antigos e outras
quinquilharias. Só quando foram trocar o telhado é
que
alguém percebeu o envelope dentro do livro.
Desesperado, ele me procurou.Tinha ódio no olhar, mas
não conseguiu falar uma única palavra. Veio calado
e
voltou mudo. Naquele mesmo dia eu o procurei, mas ele
não me abriu a porta. Senti que o fantasma do passado
voltava, mas ele se recusava a falar comigo.
No dia seguinte, recebi um recado dele. Era um convite
para uma caçada. Dizia que estava indo na frente para
colocar as iscas nos penhascos.
De longe o avistei acima, no último penhasco. Hesitei,
estava suando frio, mas precisava encontrá-lo! Saber
o
que estava acontecendo. Subi a trilha que levava ao
penhasco e quando me deparei com ele, estava com a
espingarda apontada para mim. Parei de repente. Perdi a
voz. Não acreditava no que estava acontecendo!
Ele começou a tremer... Aos poucos, foi baixando a
pontaria e deixando cair a espingarda das mãos... Sentou-
se soluçando na mais completa agonia. Tirou do bolso
o
bilhete e o leu com a voz entrecortada. Em seguida,
apertou-o entre os dedos, soltou-o no chão e fechou os
olhos chorando... Havia um cheiro de morte no ar e fui
me aproximando, mas furiosamente, ele gritou:
-Afaste-se de mim, seu traidor! Traidor!!! - E correu
para o penhasco. Tentei segurá-lo e quase fui junto.
Ele
ficou pendurado pelo meu braço, mas não queria
ser salvo.
- Por sua causa, ela levou os meus sonhos; A minha
vida!
- Não! eu posso explicar! Colabore!
- Largue-me! Não se arrisque...! Viva e amargue esta
culpa ao longo da tua vida! - e com a mão direita,
afastou cada um dos meus dedos que seguravam o seu braço
esquerdo... Desde aquele dia, me tornei um morto-vivo...
Eu tentei! Juro que...
- Sim, Professor, nós sabemos. Nós entendemos...
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