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Às
vezes eu sinto que estou sendo observado. Mas não é
por algo que seja humano. Talvez eu esteja ficando louco aqui,
nessa droga de quarto de hospital. Mas é assim mesmo
que minha vida é...aliás, o final dela.
Tenho uma doença rara, e terminal. Em breve eu morrerei,
eu sei disso. Já perdi todas as esperanças. Lá
vem a enfermeira de novo...
-Bom
dia, senhor Elísios! É hora de tomar o remédio!
a enfermeira diz.
-Não sei pra quê eu tomo essa merda. Não
faz efeito! ele responde.
-Oh, senhor! É para você não sentir dor!
a enfermeira, enquanto oferecia um copo dágua e o comprimido.
Elísios então, toma a água, e o comprimido.
Faz uma cara de nojo.
-Me dêem morfina então! Eu não sei por que
não morro logo! diz, autoritário.
-Senhor Elísios, vou lhe dar um conselho de amiga! Não
deseje tanto a sua morte! Aqui no hospital, ela é a que
mais nos ronda! a enfermeira, se retirando.
Elísios começa a rir. E diz, consigo:
-Morte nos ronda...hahaha, era só o que me faltava! Que
ela venha! Já deve estar atrasada...
Continua rindo, enquanto o remédio traz o sono. E assim,
ele acaba dormindo.
Nossa...que
lugar é esse? Onde estou?
Elísios
não via nada. Apenas uma escuridão terrível.
Começou a caminhar pelo que conseguia enxergar. Apertava
os olhos em busca de alguma luz, em vão. Quando finalmente
conseguiu enxergar, viu um imenso jardim, cercado por paredes.
Um labirinto.
Mas
o que é isso? Será que devo seguir por ele?
-Bem-vindo,
Elísios! uma voz gutural responde.
QUÊ?
QUEM É VOCÊ? QUEM ESTÁ AÍ?
-Ora,
ora! Você sabe quem. Eu sou aquela que você tanto
invoca! Seja bem-vindo ao meu labirinto! a voz responde.
Elísios começa a se assustar. Será que
estava sonhando? Será que aquilo estava acontecendo?
Ou...era a sua imaginação?
Por
que você não se mostra? Hein?
Aquele
foi o maior erro do homem. Ele teria a visão mais grotesca
de toda a sua vida.
-Hum, se esse é o seu desejo...-a voz diz.
Então, um feixe de luz ilumina parte do jardim. Agora,
era possível ver como ele era. Não havia verde.
Tudo era negro. As plantas estavam mortas. Enormes teias de
aranha eram visíveis, e um cheiro de carniça invadia
as suas narinas e causava náuseas. Elísios se
ajoelha, não conseguia manter o equilíbrio, pois
suas pernas estavam moles.
Olhou mais para o local, e via crânios espalhados pelo
chão, além de esqueletos pendurados, como se tivessem
sido enforcados.
Mas aquilo não era o pior.
-Muito
bem...agora que já viu o meu mundo de pesadelos...verá
meu rosto. a voz responde.
Naquele momento, o coração de Elísios parecia
saltar de sua boca. A gargalhada daquele ser ecoava por todos
os cantos, deixando-o louco.
De repente, veio o silêncio.
Não
consigo mais ouvir nada! Onde você está?
Elísios
sente uma brisa gelada passar pelo seu corpo. Vê um vulto
negro parado à sua frente.
O suor escorria pelo seu rosto, enquanto o grito morria em sua
garganta. O vulto se aproxima...e retira o capuz que cobria
seu rosto.
ARGH!
-Eu
sou a Morte. o vulto diz.
Seu rosto era horrível. Metade esqueleto, metade carne
podre. Larvas saíam do buraco ocular da parte óssea,
enquanto pedaços de pele caíam aos pés
de Elísios.
Por
que está fazendo isso comigo? Se quer me levar, LEVE-ME!
-Você
é muito divertido. Não tenho vontade de levá-lo
assim tão depressa. Sua alma é de um suicida.
E sabe que lugar é esse? a Morte dizia, calmamente.
...
-Todos
aqueles que me chamam quando sua hora ainda não chegou,
são trazidos pra cá. E aqueles que tiram as suas
próprias vidas também...Você não
tirou o que não era de seu direito, mas desejava que
eu aparecesse a qualquer momento. Pois assim, seu desejo foi
realizado. Morte.
Mas
o que você pretende comigo? O que eu farei aqui?
-Ainda
não compreendeu...eu quero jogar um pequeno jogo com
você. Façamos um trato: se você atravessar
esse labirinto, e chegar até o final dele, vivo...eu
deixo você em paz. Se não conseguir...ficará
aqui para sempre. a Morte.
Passar
por esse labirinto? Mas está tudo escuro!
-Tome
essa vela. Faça dela a sua luz. Mas tome muito cuidado...eles
são atraídos por ela. a Morte.
Eles?
Eles quem?
-Você
saberá. Boa sorte...-e o vulto some por entre a escuridão.
Que
Deus me ajude!
Elísios
então, começa a caminhar pelo labirinto. Não
estava tão difícil assim, pelo menos ele estava
conseguindo enxergar o caminho. Ele achava que estava sozinho...
De repente, Elísios escuta um barulho. Parecia que algo
se arrastava atrás dele.
Eu
não vou olhar, eu não vou olhar! Não é
nada! Não é nada!
O
homem repetia isso tentando se acalmar. Mas o barulho parecia
estar bem a seus pés. Sem outra opção,
ele direciona a luz da vela para baixo.
A criatura que estava ali,definitivamente não era humana.
AAAAAAAAAH!
Elísios
entra em choque! A criatura rastejava, se pendurando em suas
roupas, espalhando o mau cheiro e sangue por ela. A criatura
não possuía olhos, nem pernas. Era um torso deformado.
O homem não deu tempo para a criatura terminar de escalar
em seu corpo. Saiu correndo o mais rápido que pôde.
Ao se afastar, ouviu o grito mais agonizante de sua vida. Era
o da criatura, que havia perdido sua presa.
-Eles se alimentam de carne humana, Elísios. Enquanto
eu me alimentarei da sua alma. a voz gutural ecoava.
VOCÊ
ESTÁ BRINCANDO COMIGO, NÃO ESTÁ?Não
vai me levar dessa forma! É preciso mais que um simples
cadáver para me assustar!
-Eu
sinto tremor em suas palavras, sinto o suor escorrendo junto
com a sua saliva...tem certeza do que está falando?
a voz.
TENHO!
Eu não vou desistir, e nem vou deixar que você
me leve! NUNCA!
O
homem correu, o máximo que pôde, até suas
pernas cansarem. Parou para tomar fôlego.
Eu
tenho certeza que isso é um sonho! Só pode ser!
Queria
muito acreditar naquele pensamento, mas logo sentiu uma brisa
gelada assoprando contra o seu corpo. Sentia medo, muito medo.
O que mais poderia acontecer ali? Que outras criaturas o aguardavam?
Agora não havia mais luz. A vela havia sido perdida em
meio à correria. Elísios respirou fundo, e continuou
a andar pela escuridão do labirinto. Deixava-se levar
por seus outros sentidos, já que não conseguia
enxergar nada.
Elísios estava descalço, andando sobre folhas
secas e... mas o que era aquilo? Sentia seus pés... afundarem?
Areia
movediça? Oh, não!
-Não
é areia movediça, Elísios... é algo
bem mais viscoso... a Morte, amedrontando o pobre homem.
Quando
Elísios se deu conta, pegou um punhado daquela substância.
Ao aproximá-la das suas narinas, sentiu nojo. Era sangue...
e fresco!
E aquela imensa poça de sangue foi o sugando. O homem
tentava se livrar, mas parecia que algo o puxava mais e mais.
Foi quando sentiu mãos, muitas delas! Todas agarravam
o seu corpo: pés, mãos, pernas e braços.
Algumas tentavam afogar a sua cabeça, mas Elísios
mantinha-se firme. Debatia-se como podia, tentando se livrar
daquilo.
AAAAH!
Deixem-me em paz! Meu Deus, o que é isso? Como escapo
daqui?
-Não
há escapatória. Terá seu corpo sugado pelo
buraco até que vire mais um deles. a Morte.
Mas
o que são eles?
-São
almas. Almas perdidas e famintas. São aqueles que precisam
das almas de outros para continuar eternos. Eu os chamo de sanguessugas.
a Morte respondia.
Elísios estava perdido. Até que uniu forças.
Não sabia de onde havia tirado. Empurrou seu corpo para
fora daquele pântano macabro, apoiando suas mãos
fora dele. Respirou fundo, e conseguiu sair dali.
Ao sair, jogou seu corpo de encontro a uma árvore. Sentou-se
ali, ofegante. Estava sem forças agora.
A Morte não lhe respondia mais. Um silêncio mortal
invadia o ambiente.
Silêncio...
quanto silêncio... consigo ver... minha vida agora. Tudo
que passei, toda a amargura, jogada naquele leito de hospital.
Sozinho. Eu vou morrer, sem ao menos ter deixado um filho.
As
reflexões de Elísios, foram interrompidas pelo
barulho de algo se mexendo. Um barulho pesado, como se muitas
pessoas viessem em sua direção. Mas... ele sabia
que não eram pessoas.
Antes de Elísios se levantar, sentiu seu corpo sendo
agarrado por várias cobras. E as cobras saíram...da
árvore?
-Muito bem... essa é a árvore devoradora de almas.
a Morte.
Um feixe de luz ilumina a árvore, e Elísios pôde
ver que as cobras possuíam apenas um olho, vermelho como
o ódio. Pôde ver também, que, conforme as
cobras o mordiam, as folhas da árvore ficavam mais e
mais vermelhas. Viu rostos brotarem no caule negro, que chamavam
pelo seu nome.
-Façam
de novo! Até que os sinais cardíacos voltem!
ordenava o médico.
Os enfermeiros tentavam reanimar Elísios, mas já
era tarde demais.
ENFERMEIROS?
MÉDICOS? ME AJUDEM! EU QUERO VIVER!
Mas
nada adiantava. Os sinais vitais de Elísios não
voltaram.
A
enfermeira que medicava o homem, saiu da sala, retirando sua
máscara.
-Pobre Elísios... pelo menos não tem parentes
próximos para dar essa notícia.
O médico sai da sala, e pede que os enfermeiros cubram
o corpo. Elísios estava morto.
-Devemos enterra-lo como, doutor? o enfermeiro diz.
-Não precisa enterra-lo. A universidade de Medicina precisa
de corpos para os alunos estudarem. Já que Elísios
não tinha parentes, pode doá-lo para lá.
-Como quiser, doutor. o enfermeiro.
-Vou até a diretoria assinar os papéis. o médico.
Quando o enfermeiro volta à sala, vê algo estranho,
que o choca:
-Mas o que...
Elísios tinha várias marcas no corpo, como se
fossem várias picadas de cobra, e muito sangue escorria
dele. Seus trajes de hospital, estavam muito sujos, e um mau
cheiro terrível invadia a sala.
O enfermeiro sai correndo, pedindo ajuda. Porém, quando
todos entram na sala, o corpo estava normal, como haviam deixado.
-Deve ter sido traumático para você, Fernando,
já que foi sua primeira emergência. É normal
ter visões depois disso. o médico.
-Mas...não foi uma visão! Eu vi! Fernando.
-É melhor descansar um pouco, tudo bem? o médico.
O destino pode ser muito ingrato com quem desperdiça
todas as esperanças em coisas fúteis, e não
na vontade de viver.
E você, valoriza a sua vida agora?
Kitty
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