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FELIZ
MUNDO NOVO
Quando
propuseram que eu escrevesse uma crônica de fim de ano
fiquei dias pensando em algo impactante, algo que as pessoas
lessem e se surpreendessem, algo que contivesse palavras bonitas,
elaboradas, difíceis, rebuscadas como nos séculos
que já se foram. Fiquei pensando em algumas frases prontas
tiradas de livros de auto-ajuda ou de mensagens fictícias
do Dalai Lama, pensei em iniciar uma história triste
que traspassasse a comédia e terminasse no final feliz,
afinal de contas é assim que terminam quase todas as
histórias de faz-de-conta, mas, infelizmente, não
estamos num enredo de "Era uma vez..." em que podemos
direcionar os acontecimentos e determinarmos seu fim. Não.
Não somos nós quem guiamos a História,
é Alguém, ao Algo muito maior que nós...
que nos usa como peças de um tabuleiro de xadrez ou simplesmente
quer nos ensinar uma lição, mas somos tão
maus alunos que não saímos da recuperação.
Portanto, não pretendo nada impactante, ou mirabolante,
ou fantasioso, só pretendo deixar um registro de mais
um ano que se foi, de esperanças que se foram junto ao
ano velho que nunca foi novo porque o tempo não se renova,
ele simplesmente o é e depende apenas de nós começarmos
um novo ciclo, mas o tempo continua lá e continuará
lá sem nos esperar e nem dará um intervalo para
decidirmos o que mudar para o próximo ano. O tempo é
uma linha contínua que nós, festeiros que somos,
decidimos cortá-lo, numa linha imaginária e determinar
"Ano Velho, Ano Novo". Pois bem, que seja assim.
No ano velho tivemos fome na África, tivemos terrorismo
no Oriente, tivemos assassinatos de famosos e anônimos,
tivemos confrontos sangrentos entre pais e filhos, tivemos desastres
ecológicos, tivemos eleições presidenciais,
tivemos seca no Nordeste, tivemos desemprego, tivemos a volta
da inflação, tivemos os EUA em nossos calcanhares,
tivemos de pedir dinheiro emprestado, tivemos que rever conceitos,
tivemos que brigar por espaço, tivemos que correr atrás
das informações, tivemos que ganhar dinheiro,
tivemos que fazer amigos, tivemos que repensar atitudes e passos
mal dados, tivemos que reconhecer que nem sempre somos os melhores,
mas nem em todos os momentos somos os piores, tivemos que ouvir
o que o outro teve a dizer, tivemos que dormir, tivemos que
sonhar porque o outro lado às vezes nos chama, tivemos
que concluir um ciclo porque o ano velho terminou.
No ano novo teremos fome na África, teremos terrorismo
com o logotipo da Al Qaeda, teremos assassinatos de culpados
e inocentes, teremos discussões entre pais superprotetores
ou ausentes com seus filhos impessoais e "auto-suficientes",
teremos indústrias poluídoras porque vivemos num
capitalismo selvagem, conseqüentemente, teremos desemprego,
teremos eleições para o sindico do prédio
e da associação de moradores do bairro, teremos
o EUA nos fiscalizando, teremos de ganhar dinheiro, teremos
de mostrar que somos melhores que os outros que estão
na mesma posição que nós, teremos que aceitar
críticas, teremos que ouvir o que o outro tem a dizer,
teremos que repensar nos rumos que tomaremos, teremos que dormir
para sonhar com o que teremos no ano novo que virá.
Não acho que seja pessimismo, mas sim a realidade: tudo
continuará igual. O tempo, pensando bem, não é
uma linha contínua, é um círculo em que
todos os acontecimentos se repetem, só que de maneiras
diferentes. Mas, ele, o tempo, de forma majestosa, passa pela
nossa frente, bem embaixo do nosso nariz os mesmos erros que
cometemos no passado e continuamos a cometer no presente e,
provavelmente, cometeremos no futuro. Sabe aquelas hipóteses
que lancei no início deste texto, sobre sermos peças
de um jogo ou maus alunos? Fico com a segunda opção.
Erramos, o tempo mostra que erramos, então erramos novamente
prometendo não errar no ano novo, mas o ano novo torna-se
ano velho e na retrospectiva que reproduzimos dentro de nós
chegamos a conclusão que tornamos a errar, às
vezes, de forma diferente, mas os erros persistem e o nosso
erro erradia o erro do outro e o do outro o do outro... e os
erros de uma nação forma a cultura equivocada
de um povo e o tempo vai, vai, vai... e não volta para
consertarmos, mas ele está em círculos, nos oferecendo
a oportunidade de agarrarmos esses erros e transformá-los
em acertos. Ô recuperação difícil!
Não saímos da nota vermelha... acho que o nosso
problema é que apenas decoramos a "matéria",
não colocamos em prática nossa teoria. É
mais uma hipótese.
Tempo, tempo, nos perdoe porque levamos bomba novamente. Ainda
bem que não podemos ser expulsos dessa escola chamada
vida, senão... Por favor, deixe que o dividamos em Velho
e Novo porque assim podemos tentar mais uma vez acertar renovando
nossas forças e esperanças. Não perca a
esperança em nós, Tempo... continue girando em
círculos e nos passando a cola. Um dia, quem sabe, seremos
aprovados para um Mundo Novo.
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