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O
Formigueiro
A
verdade sobre Setacros continua confusa nos dias atuais. Da sua historia
só sabemos que aconteceu quando, ele, provocou uma confusão dos
diabos naquele formigueiro da era clássica. E toda a nobreza dos
artrópodes se reuniu no centro de seu império para julgar de forma
justa a luta que ele e Atisfos estavam travando. Bem, na verdade, não
era uma batalha propriamente dita, mas sim de uma bestial luta de
pensamentos, e o inicio da discórdia entre os matutos aconteceu em
pleno inverno, mas o motivo fora encontrado pouco antes, mais
precisamente, no final do ultimo verão, quando os trabalhadores
despreocupados carregavam as últimas folhinhas que caiam das árvores
para dentro do abrigo onde permaneceriam trancados enquanto os vindouros
dias insistissem em continuar gélidos. E foi mais ou menos assim:
Datava
do ultimo dia de verão, e Setacros, assim como seus companheiros de
trabalho estavam carregando os pequenos pedaços de folhas para dentro
do formigueiro, ia ele também com um pedacinho de folha de ipê sobre
suas costas quando ouvira uma voz que, até então estava meio
inaudível, pois era vinda do final da fila dos trabalhadores. e agora
já bem mais próxima, era possível a Setacros ouvi-la gritar:
-
Setacros! Setacros! Corre, Setacros, vá ate nosso abrigo e avisa
nossos senhores que grande tempestade está por vir. E que muitos dos
que trabalhavam lá pela mata morreram.
-
E de que adianta o aviso, vamos todos nos abrigarmos. E quando em
segurança explicaremos para os nossos senhores o motivo da folga.
-
Não Setacros! Não devemos tomar a frente de nossos senhores. Quem
somos nós? Se ao menos conhecêssemos o Rebas, poderíamos ser capazes
de tomarmos alguma decisão. Mas não o conhecemos, portanto vá, meu
bom Setacros, vá.
E
inocente, Setacros larga a tua pesada e suculenta folha de ipê,
partindo numa disparada fulminante em direção ao abrigo, e se eu
tivesse visto esta formiga correndo tão velozmente há minutos, eu,
certamente, a teria chamado de Xaja. E Setacros correu, passou pelas
esburacadas ruas do subúrbio operário, e como não encontrou o verdugo
que guarda o portão que divide a vila dos senhores da vila dos
operários, e ainda levando em consideração a urgência da notícia,
ele partiu as correntes que trancavam o portão e foi subindo sem olhar
para trás até aproximar-se da vila dos senhores, e ao entrar por
aquelas bandas, deteve-se diante de uma visão que o iluminou:
-
Nossa! Então essa é a vila dos senhores?
Tudo
ali era bonito e bem arrumado. Nas ruas não havia buracos e os poucos
habitantes, ao contrario do que o verdugo lhes falava, eram exatamente
iguais a ele, porem melhores vestidos, umas compridas asas ajustadas às
costas deixavam esses semelhantes com ar de importantes. E àquela hora,
muitos deixavam suas crias dentro de uma casinha que sustinha sobre sua
entrada uma placa com alguns desenhos que não conseguia
compreender. Ele estava assustado, ele não devia estar ali. Aquelas
ruas limpas aqueles casacos transparentes, aquela casa com os desenhos
na entrada, tudo isso certamente não fora feito para ele, talvez nem
mesmo para os teus olhos. Setacros olhava admirado, não entendia porque
aqueles filhotes, em plena hora do trabalho, estavam ali, lá no
subúrbio desde mito novas as crianças já começam a trabalhar para
garantir a comida durante o inverno. E foi neste momento que uma voz lhe
falou:
-
Pois então é você o novo ajudante da casa de Rebas?
Ficou
imóvel e a voz lhe faltou naquele momento, parecia até um mudo
balbuciando.
-
Não sabes que esse pobre diabo é surdo?- Falou uma outra voz que vinha
de um senhor que acabara de aproximar-se. – use os gestos para
comunicar-se com ele.
-
Tens razão, Atisfos. Ia-me esquecendo que os ajudantes da casa de Rebas
devem ser surdos.
-
Ora senão fossem o que seria de nosso senhoril? Questionou Atisfos num
tom murmurante quase de desdém.
Setacros
estava meio perdido, mas preferiu fingir-se de mudo, pois, conhecer a
casa de Rebas, sem duvida alguma, seria extraordinário, e no mais, ele
tinha uma vantagem, pois conhecia a linguagem dos sinais, seu irmão era
mudo e ele era o único de sua casa que tinha as habilidades para
comunicar-se com o irmão. E na linguagem dos sinais, Atisfos lhe falou:
-
Vamos logo meu rapaz! Rápido que já estamos atrasados! Qual o teu
nome?
-
Setacros, o mais veloz.
-
Ótimo! Espero que a tua velocidade lhe sirva a teu favor, meu outro
ajudante era muito veloz também, mas a sua falta de atenção o
confinou.
-
Confinou?
-
Sim, o matou. Agora vamos não façais mais perguntas pois lhe é vedado
interrogar a quaisquer um que conheça o Rebas.
Sem
demora os dois adentraram a casa, Setacros deixava transparecer toda sua
admiração, para com o ambiente. Moveis luxuosos enfeitavam o ambiente,
mas sem duvidas, o que mais lhe chamou a atenção fora o local de
trabalho onde ele deveria ajudar Atisfos. Era uma saleta, nela estavam
dispostas de maneira organizadas diversas mesinhas as quais os filhos
dos nobres, os mesmos que a pouco vira entrar no lugar, estavam sentados
aguardando a chegada de Atisfos. E fora com grande satisfação que eles
o receberam, alguns o chamavam pelo nome outros usavam mestre para lhe
dirigirem a palavra. Setacros permaneceu em silencio somente apanhava
alguns papeis, quando solicitado por Atisfos através da linguagem dos
sinais. Na sala havia um dos presentes ao qual Atisfos dava um valor
elevado, tratava-se de Mitras filho de Noele, um dos mais nobres membros
da comunidade e muito querido da rainha Helena. Setacros, passou dias
trabalhando junto à casa de Rebas, não podia voltar para avisar os
seus o motivo da demora, e tão pouco sabia que o verdugo já havia
informado que Setacros estava a trabalho na casa de Rebas. Mas
independente de qualquer motivo, Setacros estava gostando da casa de
Rebas, e nada o faria sair daquele lugar, enquanto não descobrisse
definitivamente quem era o Rebas. Na casa, fora à sala onde os filhos
da nobreza hierarquicamente ouviam Atisfos falar sobre Rebas, havia uma
outra com umas fileiras cheias de blocos de papel com os mesmos
símbolos que estavam na entrada da casa com a diferença de serem em
quantidade muito maior, e esta era a sala que mais lhe agradava e em
pouco tempo Setacros já conseguia interpretar todos aqueles signos e
logo todos os blocos de papel tinham sido devorados por seus olhos. Mas
isso o traria grandes problemas como veremos;
Ele
então pode entender porque motivos Atisfos dava preferência a Mitras,
e também o porque de todos seus ajudantes serem surdos. Setacros não
conformava-se, via aquele futuro da nobreza como algo programado,
identificava a si mesmo em cada um daqueles nobres, e o único motivo
que lhes garantia a nobreza e a luxúria era serem eles, ou melhor, o
fato de intitularem-se como os conhecedores do Rebas. Uma confusão
tomou conta dos miolos de Setacros, então ele partiu para a casa de
Olucaro, pois lá certamente encontrar-se-ia sozinho o suficiente para
decidir seu caminho. E passou alguns dias mergulhado em profunda
solidão, e quando o inverno finalmente chegou, Setacros despertou de
sua solidão e resolveu partir da casa de Olucaro. Ao chegar no reduto
da nobreza como já estavam no inverno, Setacros pode deparar-se com
Mitras e Noele, e para certificar-se de que estava no caminho certo
resolveu questiona-los a respeito de Rebas:
-
Mitras e Noele, muitas bocas dizem por estes lados que vós conheceis o
Rebas. Pois então trata-se de uma verdade.
Filho
e pai olharam interrogativos para aquela figura, que agora com as
barbas a lhe caírem pelo queixo, não guardava nada mais daquele
servente surdo-mudo de Atisfos e lhe responderam:
-
Sim somos nós os conhecedores do Rebas. E quem dos que aqui habitam,
com exceção de nossa majestade, possui nobreza maior para conhecerdes
o Rebas?
-
Sim, Noele não discordo de tua nobreza. Mas com que então, tu, teu
filho, tua rainha e a nobreza que habitam, divulgam entre os que habitam
lá embaixo, que somente o trabalho seqüencial durante toda a vida é
que os levara ao conhecimento do rosto de Rebas, após dormirem
intensamente com seus corpos sufocados pela terra?
Mitras
percebendo que o intruso era Setacros responde:
-
E não trata-se de uma mentira ou uma lenda, Setacros. Tanto eu como meu
pai, trabalhamos e como recompensa dormimos, conhecemos Rebas e cá
estamos nobres por direito.
-
Meu bom Mitras! Como podes ser tão cínico? Se tu, assim como
Noele e toda nobreza, trabalharam, dormiram e conheceram o Rebas, como
descreve a lenda que o verdugo conta aos que moram após os portões,
responda-me bom Mitras “- Por que motivos Noele, teu pai, conhecedor
do Rebas e da lenda, paga tão alto valor a Atisfos para ter você,
pobre Mitras, como discípulo da casa de Atisfos? Já que você assim
como a seu pai e segundo a lenda já conhece o Rebas. Responda-me se lhe
for possível, Mitras.
Mitras
indignado com o interrogatório partiu junto com seu pai para informar a
rainha sobre o intruso. E Setacros, agora mais do que nunca estava
munido da certeza de seu caminho, partiu em direção ao portão que
dividia a vila dos nobres da vila dos operários. Ao chegar, deparou-se
com um velho que vinha saindo de sua casa já pronto para o trabalho.
Era o verdugo, ele parou por um instante a contemplar o rosto do
forasteiro que vinha reluzindo uma harmonia digna dos conhecedores do
Rebas, seus olhos não eram apenas olhos, mas eram como duas bolas de um
fogo intenso, e pelo pretume destes olhos era possível ver toda a
alegria e sobriedade que só os imortais possuem. E ao contemplar tal
figura, dirigiu-lhe a palavra de um modo muito mais sutil que de
costume:
-
Aonde vais meu belo jovem? Que magnífica paz levas por trás dessas
negras candeias?
Setacros
guiado pelo coração e preenchido por uma luz que, de tão intensa, já
não cabia mais em teus olhos, respondeu:
-
Vou ter com os que habitam lá embaixo. Trago novidades para eles.
-
Novidades? O que de tão novo levas tu, meu amigo, de lá de cima para
os que habitam aquilo? Fez um gesto com a mão apontando a vila dos
trabalhadores.
Setacros
fitou o verdugo com ar de simplicidade, piscou os dois olhos e disse:
-
E lhes trago a verdade sobre o Rebas.
-
E porque tu iras admoestar os que estão quietos, com semelhante coisa?
Estão felizes, como vivem não precisam de verdades, e no mais, irão
te chamar de louco. Porque não faz como eu? Eu vim de baixo, peguei a
parte do Rebas que me diz respeito, e fiquei aqui, nem lá em cima, nem
lá em baixo. Proíbo os que tentam subir contando-lhes mentiras que
garantem o ócio dos que moram acima. Esta é minha vida guardar os
portões, mas se tu não gostar de portões, podes fazer como os demais
e descer até lá para comandar os trabalhadores. Não compensa, meu
amigo, incomodar os trabalhadores com assuntos complicados, e no mais,
eles estão felizes com o que tem; uma família, trabalho, diversão e
uma lenda promissora são tudo o que precisam para viver. Portanto
fique, aqui lhe tratarão muito bem, e não precisara trabalhar demais.
Setacros
parou, fitou o verdugo nos olhos e viu como estava velho aquele homem,
alias, tudo ali era velho. As casas e suas paredes limpas com cheiro de
vazias pareciam um pesadelo, aquela gente era mesquinha e covarde.
Observar o verdugo tossir os pulmões causou náuseas em Setacros, e
observando aquele lugar de mentira, aquele homem de mentira, disse:
-Ficar
aqui? Olhe este lugar, olhe para você! Isso tudo cheira-me a covardia!
E, no entanto você, o verdugo, o homem mau, mora aqui. Sinto
decepcionar-te, mas vou descer, e mesmo que me tenham por louco estarei
feliz pois não fui covarde, não escondi-me atrás de meio conforto só
por eu ser medroso.
-
Pois então vá! Mas, fique sabendo que nossa rainha Helena ira ter-lhe
por desertor e pedira a tua cabeça.
Setacros
bateu violentamente com os braços sobre seu corpo para retirar toda a
carga negativa que aquele lugar o incutira e seguiu seu caminho. Fora
aproximando-se da praça onde os trabalhadores e suas famílias
comemoravam as festas de inverno. Ao dirigir-se em direção à tribuna
que ficava ao meio da praça, onde comediantes discursavam para distrair
as massas, seu pai o reconhecendo gritou:
-
Vejam, é Setacros! Vem dos campos Elíseos e quer nos falar.
Ele
subindo à tribuna não pode deixar de notar os olhares cheios de
curiosidade que lançavam-lhe todos. E muito pacientemente, Setacros
piscou os olhos e disse a todos:
-
Amigos, eu estive lá encima, nos campos Elíseos, freqüentei suas
praças conheci seus habitantes, e não importa agora como lá cheguei,
o que importa é o que vos trago. Eu vos anuncio o verdadeiro Rebas!
Aquilo
causou furor na multidão, muitos riram e fizeram chacotas, mas uma
grande parte impôs o silencio necessário para que Setacros
prosseguisse o discurso.
-
Com que então, vocês se riem? Estou aqui para dizer a vocês que na
há diferença nenhuma, a não ser visual, entre os que estão aqui
nesta praça dos que estiverem em alguma das praças dos campos
Elíseos. E por isso eu vos anuncio o verdadeiro Rebas; O verdadeiro
Rebas consiste em saber que nada sei, nada, é claro, alem do que vocês
sabem.
Agora
as gargalhadas eram coletivas e ensurdecedoras, os ébrios rolavam pelo
chão babando, e gritando; “ – eu conheço o Rebas, há, há,
há!”. Enquanto todos riam de Setacros, ele retirou um par de asas
nobres de seus bolsos e puxando um esfarrapado que estava a seu lado
vestiu-lhe com o nobre ornamento. A multidão calou-se diante da visão
que acabara de presenciar, Setacros aproveitou o intervalo e disse aos
pobres:
-
Então, que me dizem agora? Observem este farrapo. No que ele difere dos
vultos que vocês conhecem através das lendas e estatuas que os
verdugos nos mostram?
Era
possível ouvir o seco engolir de salivas coletivo dos que estavam na
praça. Nenhum dos presentes podia entender como aquele farrapo estava
tão igual às estatuas que os verdugos apresentavam. Uma voz vinda do
meio da multidão indagou:
-
Mas então, a lenda nada mais é que uma mentira?
-
Não diria somente mentira. – disse piscando os olhos. – Mas também
uma forma de nos manter quietos em nossos trabalhos vigiados pelos
verdugos, enquanto eles gozam do ócio, numa vida sedentária a qual
chamaram de nobreza.
Um
grito nascido do meio dos agrupados dizia:
-
Viva Setacros! Vamos até lá, nós também queremos o Rebas!
E
dispararam em direção ao portão que divide a vila dos nobres da vila
dos trabalhadores guiados por Setacros que ia à frente mostrando-lhes o
caminho.
Mitras
e Noele estavam com a rainha Helena, informando o ocorrido:
-
Trata-se de Setacros, majestade.
-
Setacros? O mesmo que trabalhava na casa de Atisfos? Mas não era surdo?
-
Deveria, mas não era, e agora deve estar lá na vila dos operários,
corrompendo-os, e lhes incitando a igualdade. Sua majestade deve tomar
providencias imediatas, antes que nosso senhoril esteja ameaçado.
Foi
quando um ruído ao longe pode ser escutado, e um servo correndo trouxe
a noticia:
-
Majestade, um grupo de amotinados esta gritando por democracia lá
nos portões da vila dos verdugos. Em poucos minutos colocarão os
portões abaixo.
-
Não avisei! Agora esse bando de farrapos vai destruir tudo por aqui e
será o fim de nosso senhoril.
A
rainha pediu a todos que ficassem calmos e ordenou que viesse Atisfos a
sua presença. Chegando, a rainha chamou-lhe à atenção por ter
deixado uma pessoa qualquer da classe inferior adentrar sua casa, e em
seguida falou:
-
Temos agora que manter as aparências. Digam aos verdugos que deixem
passar a multidão, mas digam também que haverá um julgamento
democrático das causas de Setacros e Atisfos, sendo que os demais
poderão assistir ao julgamento desde que permaneçam quietos, e o que o
veredicto aprovado pelo júri será tido como lei por todos nós.
Os
portões foram abertos, pois todos concordaram. Ao entrar no tribunal
Setacros deparou-se com toda a elite local. Seguiu em frente e sentou-se
ao lado de Atisfos, a rainha deu então inicio ao julgamento
demonstrando pressa, pois dispensou todos os diálogos iniciais:
-
Pois então, deixo a palavra com Atisfos, sendo ele, segundo nossa
crença, o maior conhecedor do Rebas. Por tanto fale Atisfos, defenda
sua casa:
-
Eu, Atisfos acuso Setacros, de corromper os trabalhadores e atentar
contra, nossa majestade e contra a lenda de Rebas. Por tanto espero que
o presente desordeiro explique-se muito bem sobre tais acusações.
Setacros
ouviu calado, e após uns instantes piscou os olhos e disse:
-
Atisfos, parece-me que você, um homem que se diz conhecedor do Rebas
não esta assim tão seguro de si, pois ao que me lembro, nossa
majestade, pediu a você que se defendesse e não que acusasse. Mas de
suas acusações, irei defender-me primeiro da menor e esta certamente
é a que diz respeito à lenda de Rebas. Responda-me uma pergunta
Atisfos; A lenda de Rebas da qual o senhor fala é aquela que diz,
que todo homem que trabalhar toda sua vida ira ao final dela dormir o
sono eterno e acordar nos campos Elíseos sendo conhecedor do Rebas? É
esta a lenda que o senhor diz que eu nego?
-
Sim, esta é lenda que o senhor nega.
-
Pois então meu bom Atisfos, como pode ser que somente após dormirmos
um sono eterno chegaremos aos campos Elíseos, se estamos todos nos
agora reunidos nele?E por que a rainha considera-te o maior conhecedor
do Rebas, se a lenda diz que todos conheceram o dito? Posso responder
essa pergunta Atisfos, porque a lenda só existe para manter o seu ócio
assim como o dos demais nobres aqui presentes.
Atisfos
não soube como responder, os olhos dos trabalhadores encheram-se de
ternura, pois eles compreendiam Setacros, e este vendo que o adversário
cambaleou seguiu com a sua defesa:
-
E, não vejo porque continuar defendendo-me de acusações sem
fundamento, portanto passo a descrever o que queremos. Queremos o
direito comum para freqüentar a casa do Rebas. Exigimos que os portões
sejam derrubados, e que o ócio seja banido do reino, exigimos igualdade
no trabalho e tambe...
A
rainha percebendo que a causa já estava quase perdida levantou-se
piscou para os nobres e disse a todos:
-
Diante de tal discurso só tenho a dizer que estou do lado de Setacros,
e tudo o que ele nos passar por escrito será tido como lei sendo que
esta deva apontar para o bem estar do reinado. E portanto encerro este
julgamento condenando Atisfos À forca e Setacros como conselheiro da
rainha.
Todos
saíram felizes, os trabalhadores voltaram as suas casas cantando e
gritando o nome de Setacros. À noite serviram um jantar em
comemoração ao novo conselheiro no cardápio principal tinha folhas de
acônito, enquanto Setacros comia a rainha estalava os dedos e sorria.
Muitos comeram do acônito, inclusive alguns membros da corte. E no dia
seguinte foi em grande pranto que a rainha anunciou a morte de seus mais
fieis súditos entre eles o jovem Setacros. O motivo os cortesãos
juravam não saber, e no mais a noticia era tão triste que muitos nem
questionaram o motivo. Neste mesmo dia enforcaram Atisfos, e debaixo de
lagrimas frias a rainha helena falou da falta que Setacros iria fazer ao
seu império, e disse que colocaria seus sonhos em pratica e que ele
jamais seria esquecido.
Levantaram
uma estatua em louvor a Setacros, a casa de Rebas foi dividida em três
partes, sendo que a parte maior ficou nos campos Elíseos e a pior no
setor produtor e que, por ser gratuita, nuca funcionava de acordo, os
muros físicos foram derrubados, uma nova lenda fora criada, os
trabalhadores tinham acesso à vila dos nobres somente para limpá-la,
os nobres criaram profissões para dar a impressão de que trabalhavam.
Na casa de Rebas dos campos Elíseos continuavam a ser guiadas por
formigas muito parecidas com Atisfos que agora atendiam pelo nome de
Serotier.
O
fato é que passada a confusão o império de Helena durou mais alguns
anos, vieram outros que o sucederam como império de Amor. E hoje sob as
asas do império da Iracema, a estatua de Setacros descansa em paz
dentro de museus e nas casas covardes dos verdugos que dividem as vilas.
E muitas das qualidades de Atisfos são empregas em nome de Setacros, e
desse modo, a sábia rainha Helena conseguiu garantir o eterno senhoril
dos ociosos nobres.
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