Fragmentos Do Homem: Voz




Esqueço do ontem quando o telefone toca e do outro lado ouço a voz dele, forte, a amansar minha aspereza. É quando a ouço que risco da nossa história e do meu vocabulário a palavra acabou e volto a esculturar sonhos em tons violetas da nossa imperfeição enquanto de sua boca ecoa um descompromissado eu te amo.
De tudo que não restou, retenho em mim a voz dele tateando as minhas covardias diante de seu amor.
Mais não é som da minha partida que relembro, e, sim, a existência indelével dele na minha vida, que compartilhei com todos os poros abertos.
A voz dele sabe o quanto custa-me manter esta distância, o quanto queria sorver de sua boca os beijos que rasgam meu ventre e que sopram as relíquias de minha carne.
A voz dele abre sendas para os úmidos desejos das minhas coxas, impetuosas e adestradas, que ofertam mistérios e por entre elas o sofrimento a píncaros, a procura do toque, o querer sentir nos pelos da pelve as ardências de sua mão, porque a minha pele não o esquece e é ao som da voz dele que visto poemas ensandecidos e semeio destinos, ou vícios dele em mim, ou os arrepios causados por nossos corpos em movimento.
Na voz dele, o desafio de provar tudo que só imagino, dançando farta e soberana, dentro de um mundo de alegorias que teci para nós, e agora, esse mundo queima para assegurar minha paisagem.
Eu queria que fosse como no início e assim, estaríamos sempre juntos, sua voz aplaudindo nossas mentiras, as extensões respeitadas, tudo muito a margem, pois era o que nos mantinha unidos e a salvos, e não as juras e quebras de pactos. Assim, não precisaríamos fazer de nossa história um cerimonial de adeus ao amor impossível.


                         

Aline Belle

 

principal poesia prosa links contato