JÚLIA

Engraçado o que acontece nas noites de inverno. O céu
limpo, sem nuvens e uma temperatura extremamente fria...
Foi numa dessas noites que conheci Júlia. Minha doce
Júlia...
Eu caminhava pelas calmas ruas daquela pequena cidade do
interior. Estava nervoso, entediado, afinal eu, no alto
dos meus dezoito anos, queria estar na capital, com os
amigos da minha idade. Pobre de mim que ainda não sabia
valorizar uma noite daquelas. Pobre de mim que não
imaginava o que era o amor. Mas naquela noite eu
aprenderia. Aprenderia com Júlia...
Não me lembro bem porque foi que olhei naquela direção,
a única coisa de que me lembro é daquela menina de
cabelos negros, sentada no banco da praça. Aproximei-me
dela e , ao ver sua pele alva e sentir seu perfume de
flores, apaixonei-me perdidamente. Ela olhou-me
assustada e tentou esconder os olhos vermelhos de
lágrimas. Ah, seus olhos... Pareciam duas jabuticabas.
Como eram belos aqueles negros olhos! Perguntei-lhe o
que a fazia chorar e ela então me contou que seu pai,
médico na cidade, iria mudar-se de cidade e que levaria
a família consigo. Ela teria de abandonar sua casa, seus
amigos, sua escola. Pedi que se acalmasse e ela então me
olhou com tal ternura que me adentrou a alma. Nunca me
esquecerei daquele olhar e de suas palavras: "Fico muito
agradecida por se preocupar comigo, afinal nem nos
conhecemos."
Quando ouvi aquela voz e vi o movimento de seus lábios
não pude me conter. Beijei-a com tanta paixão e força
que sentia como se meu corpo adormecesse e como se o
mundo houvesse parado de girar. Naquele momento só podia
senti-la em meus braços e lábios. Ela então se soltou de
mim e me olhou num olhar que misturava dúvida e desejo.
Meu Deus, como resistir aquele olhar? Abracei aquela
linda moça contra me peito e senti seu coração num bater
frenético e ritmado. Não dissemos uma só palavra. Nos
amamos com tal loucura, com tal paixão... Não sentimos
sequer o frio da noite. Que noite! Depois de tão intenso
amor, ela beijou-me a testa e saiu. Chamei-a, perguntei
seu nome, implorei que ficasse. Aqueles olhos de
jabuticaba penetraram fundo nos meus. Ela abriu um largo
e delicioso sorriso.
- Júlia.
Foi tudo o que ela disse, virou-se e foi embora. Nunca
mais encontrei minha Júlia. Nunca mais esqueci daquela
noite. Até hoje, muitos anos depois, ainda me perco nas
estrelas das frias noites de inverno.

 

Ana Paula Pichinin

 

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