Mitologia urbana

A vila era praticamente um quarteirão, e na estrada de terra que conduzia à fazenda cafezal, Eros e a Alma viviam. Como não tinham muitas casas no local os dois cresceram praticamente juntos, e agora com poucos anos de puberdade adoravam estarem juntos um do outro. O que mais os aprazia  era poderem ficar sentados na varanda da casa de Alminha (era dessa forma que todos chamavam Alma), dali eles podiam contemplar as noites sempre lindas, e a lua os vigiava lá do alto, do infinito céu de um azul escuro deslumbrante. As estrelas bruxelantes contrastavam com a jóia, prateado pingente, no centro daquele majestoso espetáculo noturno. Mas a lua nem sempre estava cheia e prateada havia dias que estava avermelhada, outros pequenina. Mas Eros a cultuava cheia, dizia ele “que aquela era a lua dos sonhos eternos”, e contava estórias sobre o lado escuro do astro e Alminha, mesmo que não acreditando, fazia-se admirada e pousava seus enormes carinhosamente sobre o rosto iluminado de Eros. E assim passavam as noites, antes da hora de ir embora Eros aproveitara alguma proposital distração de Alminha para lhe roubar um selinho. Ela fazia-se de assustada e enquanto observava o namoradinho partir  gritava sempre a mesma frase:

- Descarado! Nunca mais quero te ver!

Ele sabia que não se tratava de uma verdade e com os braços abertos seguia o caminho para casa ouvindo a sinfonia dos grilos que com sua passagem agitavam cada vez mais os cambitos constituindo uma verdadeira sinfonia. Quando dia ele partia para a roça do café, e de quando em quando parava para contemplar o rosto de Alminha desenhado pelas nuvens que bailavam no azul celestial. Alminha ficava horas na janela com seus olhos perdidos no horizonte infinito que acabava só quando o céu  e a terra encontravam-se.

Mas os homens caminhavam mais rápido que os dois, e logo estavam pisando na lua, Eros e Alma puderam ver suas fabulas desmentida em todos televisores do mundo. Um amontoado de casas e prédios foram sendo levantados, a fazenda cafezal deu lugar a um supermercado, e as nuvens estavam escondidas atrás da fumaça que as fabricas vomitavam incansavelmente. O horizonte de Alma já não mais existia e a varanda deu lugar a um muro alto cheio de lanças em seu topo, a lua jazia triste e esquecida atrás dos fios de altas tensões e não conseguia brilhar mais que as luzes dos postes elétricos. Eros e Alma estavam separados, ela não tinha mais o horizonte e ele não via mais o céu, estava sempre ocupado com o trabalho corrido dos dias urbanos. No caminho quando voltava para casa à noite os grilos eram outros e a única sinfonia que se podia ouvir era a dos cães que latiam, oriundos atrás das infinitas grades das casas modernas, isso sem falar no asfalto por onde as motos e  os bêbados completavam a orgia. Eros não queria mais selinhos. Ele agora prefere as vaginas molhadas, e transa com todas a procura do prazer rápido que por segundos o faz esquecer das antigas noites de lua cheia. Alma também já não tem mais orgasmos com beijinhos ela quer agora, cacetes duros e em quantidades maiores, se droga e se pinta tentando fazer renascer a menina dos olhos negro que morreu sufocada pelo concreto.

Eros desiste do emprego e desesperado tenta acalmar sua solidão nas bocetas fétidas e na cocaína quente, de olhos arregalados corre nas madrugadas frias empunhando revolveres e matando por dinheiro quem cruzar seu caminho. Alma foi vendida em todos os veículos de comunicação das mídias, hoje sobrevive à base de anfetaminas que garantem seu sorriso, nas frias esquinas sujas ou em motéis luxuosos que garantem sua vida de aparências.

Alma foi encontrada morta, estrangulada e jogada num córrego por onde passam os esgotos domésticos, o assassino deveria estar mais desesperado que ela. Eros foi preso, e casou com um homem na cadeia. Depois da condicional voltou a matar, mas não foi assassinado não, ele morreu carcomido pela AIDS. Foi enterrado num cemitério para indigentes no coração da metrópole.

Sidarta Batista da Silva

 

 

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