|
Mudanças
Irritado,
Pedro arrancou a folha, amassou e jogou longe.
Havia muitas outras por todo quarto. Tirou os óculos,
pegou outra folha e colocou na máquina de escrever.
- O computador tinha de pifar justo agora? Odeio máquina
de escrever.
Talvez se eu mudasse o tema, conseguiria ter mais
sucesso. E se eu escrevesse a respeito de um anjo
atrapalhado.
- Muito brega.
O fascínio da bola; um clássico de futebol; o
sonho da
maioria dos garotos em ser jogador de futebol...
- Não, tem-se escrito muito a respeito de futebol
ultimamente.
Poderia tentar algum assunto mais profundo: o amor/ódio,
a vida/morte, o casamento/dinheiro, o progresso/depressão.
- Haja energia. É só um conto que quero escrever.
Pedro aprumou-se, respirou fundo colocando os óculos.
Fitou a máquina de escrever, desejava começar,
porém suas
mãos não se moviam, como se a máquina fosse
um monstro
que as devoraria. Desistiu.
Andava de um lado para o outro como aquelas feras
enjauladas.
Pegou a caneta e o caderno, imaginou aquela folha
preenchida por sua letra miúda. Sentou-se na cama,
apoiado à cabeceira. Ficou inerte por um tempo,
- O problema não é o tema, mas como desenvolvê-lo.
Sou ainda um mísero estudante secundarista, que até
então
não se interessava muito pela gramática, pelo
sentido das
palavras. Literatura então, só os resumos das
obras.
Agora, vê se pode? Eu no alto dos meus 17 anos, em pleno
sábado, trancado no meu quarto.
- Ando mudado mesmo.
O pior é que não consigo escrever, nem desistir.
A culpa
disso tudo é da professora de Língua Portuguesa,
ela fez
com que eu começasse a me interessar, ela sempre fala
que
eu levo jeito para essas coisas da Língua. Vou acreditar
para não perder a amiga.
E assim, Pedro criou coragem e retomou a escrita com o
mesmo tema.
Título: A mudança
"Tudo o que aquela família desejava era mudar-se
para a
tão sonhada casa própria. Os pais eram os mais
eufóricos,
todo dia a mãe falava da sua bendita casa «nova».
O pai
até dizia que agora os problemas financeiros iriam
acabar. A filha também feliz, só se preocupava
um pouco
com a distância. No entanto, o filho sentia um frio na
barriga cada vez que tocavam no assunto, ele teria de
deixar muitas coisas para trás, principalmente, o ...
Conseguiu escrever um pouco mais, até que surgiu outra
dúvida.
- Será que depois de parênteses devo usar vírgula?
Leu e não gostou do que escreveu.
Sentiu-se derrotado. Colocou o caderno de lado, pegou o
violão e começou a tocar com muito talento.
O som do violão, a melodia, seus dedos ágeis correndo
pelas cordas - começou a sentir um certo bem estar.
Foi até a janela, com violão em punhos, abriu
as
cortinas. Fechou-as.
- Ai, que horror!
Naquele dia, o céu, num azul único, era o mais
lindo
dos céus, com o sol a ornamentá-lo, Pedro não
conseguiu
perceber, mal olhou para fora.
Há bem pouco tempo, no apartamento em que ele morava,
quando abria as cortinas do seu quarto vislumbrava o
Corcovado, ficava sempre muito tempo na janela a tocar
seu violão, era como se, quanto mais olhasse mais teria
para ver.
Ali não, dava de cara com as casas da rua detrás,
a
maioria delas eram sobrados como a dele. Achava as ruas
muito estreitas, fora acostumado com Avenidas. E também
não era muito perto de nenhuma praia.
- Quatro meses e ainda não me acostumei com a mudança
de
casa, disse com pesar.
Sentou-se na cadeira, começou a solar Corcovado, de Tom
Jobim. Olhando em direção a janela cantou:
" Num cantinho um violão
Esse amor, uma canção . . .
. . . Da janela vê-se o
Corcovado, Redentor
Que lindo! . . ."
Era como se estivesse no antigo apartamento, seu
verdadeiro lar. Entrou em seu antigo quarto, tudo ali
pulsava. A sala com sua sacada . . .
Foi quando chegou na parte da música em que diz:
" E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você . . .
Então, veio á sua mente, Marininha, a vizinha
da casa 43.
- Quanta beleza!
Agora revigorado, foi até a cama, pegou o caderno e a
caneta. Voltou, puxou a cadeira para perto da
escrivaninha, afastou a máquina e começou a escrever.
"O que ele não sabia é que a cada dia, novos
e belos
acontecimentos se apresentam a cada pessoa . . ."
Encheu duas páginas com sua letra miúda. Releu
tudo e se
deu por satisfeito.
Foi até a janela, abriu as cortinas, espreguiçou-se,
percebeu o quanto o dia estava lindo. Quando ia voltar
para passar seu conto a limpo, eis que surge Marininha.
Pedro abriu seu melhor sorriso, acenou. Marininha toda
brejeira devolveu o tchauzinho num largo sorriso, fez
sinal para que ele descesse com o violão.
E lá foi ele cantando:
- "... Eu conheci
O que é felicidade
Meu amor."
|