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"Nem
tudo que engorda a mente faz saber melhor" (César
Magalhães Borges)
Estava eu vindo para casa na hora do almoço, de um lindo
domingo ensolarado, quando um grupo de torcedores do Santos
entrou comigo pela mesma porta quando o metrô parou. Num
primeiro momento achei-os alegres: cantavam a sua fidelíssima
torcida pelo time. Um segundo olhar e ouvido, porém,
bastariam para que a minha impressão sobre eles fosse
outra. Enquanto cantavam, batiam com garrafas de plástico
no teto do metrô; não sei o que tomavam, mas o
líquido em algumas garrafinhas não tinha a cor
da água. Todas as suas músicas tinham palavrões
medonhos; e olha que eu não falo disso como uma velhinha
moralista feito aquelas que se achavam sentadas nos bancos cinzas
do metrô e que estavam horrorizadas com todo aquele "excesso
de empolgação". As crianças os olhavam
surpresas. Enfim, eu respeitava o direito deles de estarem alegres
e bastante felizes por irem à Vila Beomiro assistir ao
jogo, mas eles não respeitavam o meu direito de não
desejar ouvi-los. Incomodavam a todos no nosso vagão;
não notei uma única expressão de quem se
harmonizasse com eles na bagunça que faziam. Cantavam,
gritavam, batucavam no teto, pulavam de um lado para o outro
e dançavam. Como aquilo tudo era triste! Olhei detidamente
para cada um daqueles moços (eram uns oito mais ou menos;
não cheguei a contar) e vi um cujo comportamento chamou
bem mais a minha atenção. Segurava-se naqueles
ferros perto dos bancos, e estava (talvez fosse) bem tímido.
A impressão que tive é a de que nem ele mesmo
se identificava com aquele pessoal, mas estava ali, perdido
no meio deles. Não se movia. O que seus amigos gritavam,
ele cantava bem baixinho, e quando os outros o evocavam, ele
respondia com um sorriso, apenas. Qual era a necessidade desse
moço de ser aceito por aqueles outros rapazes? Não
sei, e nem sei se ele sabe.
Como eu disse, não reclamo pelo incômodo, porém
lamento pela demência e porque quando estão em
grupo, eles perdem a sua individualidade e reúnem "coragem"
para fazer coisas que não fariam sozinhos. Cantavam,
contentes e dementes, que a torcida adversária apanharia.
Olhei-os novamente e pensei: "Se o Santos perde, então,
eles choram...", e o que mais me assusta é tamanha
agressividade. No caso, eram torcedores do Santos, mas poderiam
ser do São Paulo, do Corinthians, do Palmeiras; tanto
faz. Eles, e as outras "torcidas organizadas", reforçam
a minha crença de que, como está, hoje é
dada uma importância muito grande ao futebol que não
a merece, quando a própria "importância"
dele estimula em muitos torcedores o seu lado irracional e,
até por que não dizer, a sua "ferocidade",
visto que saem por aí alienados e agindo como perigosos
animais.
Eu não sei se eles são capazes de fazer tudo ou
um por cento do que ameaçam, mas realmente eu não
me interesso em pagar pra ver. Uma das coisas mais inocentes
que aquele grupo "cantou" foi que "iriam assistir
ao jogo e que levariam maconha, não para fumar nas cadeiras
numeradas, mas sim na arquibancada"; passavam a idéia
de que isto era mais gostoso; "pornografizavam" o
restante de seus hinos. E eu lamentava aquela demência
coletiva.
O que sei é que como é sentido, o futebol vem
estender a existência multimilenar do pão e circo,
feito mais um dos chavões que distraem o povo, contando
ainda com episódios de agressividade que se eternizam,
a fim de alimentar a fome de cultura das massas. (E lá
está a Rede Globo transmitindo o espetáculo ao
vivo.)
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