O Bar

 

Ainda ontem passei por lá. Estavam pintando a fachada, pois havia mudado de dono. A mesa três estava ocupada por um casal de jovens que me fez recordar Madalena e eu há alguns anos.
Nos conhecemos naquele bar, numa noite de inverno.Madalena gostava muito de ficar ali. Íamos aos sábados e sempre pedíamos a mesma coisa: ela, suco de laranja e eu uma "cervejinha".
Mas um dia tudo mudou. Madalena andava estranha...Saía cedo, voltava muito tarde e aos sábados passou a recusar meus convite para o barzinho. Resolvi então, pedir ajuda ao meu melhor amigo: Virgílio. Ele era risonho,otimista e sempre falava a coisa certa na hora certa. E ele passou horas tentando me animar e acabou me convencendo que aquilo era normal num casamento e que tudo ia acabar se ajeitando. Fui para casa mais tranqüilo nesse dia , mas quando cheguei, madalena já estava deitada e como ela não perguntou onde eu estava, eu mesmo falei que estava pedindo conselhos ao Virgílio. Madalena fitou-me e com uma expressão tão mascarada sorriu a ponto de me assustar.
Passaram-se duas semanas e madalena ficava cada vez mais distante de mim. Sempre recusando meus convites para sair e conversar.
Numa sexta feira não agüentei e desabafei...Falei de sua ausência, sua indiferença...Madalena muito séria me ouvia e eu irado comecei a falar do passado, o bar onde nos conhecemos, o suco de laranja que ela sempre bebia, a preferência pela mesa seis... E por um momento vi lágrimas nos olhos de Madalena.O barzinho de sempre exercia grande influência na sensibilidade de Madalena.
Mas não tive tempo de correr para alcançá-la, pois ela saiu e bateu a porta. Fiquei horas pensando em algo que eu pudesse fazer, e resolvi procurar meu grande amigo Virgílio, mas não o encontrei. Vi que teria que pensar sozinho, tomar uma decisão. Eu gostava muito daquela mulher e não poderia deixá-la só por uma crise.
Pensei em fazer uma surpresa para Madalena, talvez reservar a mesa seis para aquela noite e pedir que fossem colocadas flores sobre a mesa. O resto era fácil... levar Madalena até o bar de sempre e dizer que a amava muito.
Eu estava decidido, era isso que eu ia fazer...Caminhei três quarteirões pensando em Madalena, até que avistei na esquina o "nosso bar"...Ah, ela ficaria feliz com a surpresa . Entrei no bar entusiasmado e olhei para mesa seis...Fiquei sem ação, me faltou ar...A mulher que estava lá tomava suco de laranja...Sentei numa banqueta e esperei que na mesa seis Madalena e Virgílio terminassem tão demorado beijo.

 

Crisley Aparecida de Oliveira Ladeia

 

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