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O
Homem que Sonhou e Morreu
João
Carlos sonha com o mar, sonha com uma cadeira de praia e uma cerveja
gelada, sonha com a loira deitada para o bronze, com a morena que passa
empinada, com o Sol que olha para ele...
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HORAS: TTTRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!!
João
Carlos pula da cama, abre o chuveiro e enquanto a água que cai esquenta
ele vai até a cafeteira e enquanto a cafeteira faz o café ele vai até
o guarda-roupa e escolhe o terno azul marinho e enquanto a roupa está
encima da cama bagunçada ele toma banho e enquanto a chuva do chuveiro
cai sobre ele, ele se ensaboa e enquanto o sabonete escorrega ele enxágua
os cabelos. Sai do banheiro vai até a cafeteira e coloca o café quente
na xícara e enquanto esfria ele vai até o quarto vestir o terno azul e
enquanto o terno azul se acomoda ao seu corpo quase enxuto ele toma o
café quase frio e sai.
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H 30 Min.: João Carlos pega o ônibus lotado, ele vai pendurado na
porta, pede licença, não resolve, empurra, então consegue entrar e
fica no meio do caminho, no meio do corredor entre uma mulher que está
a sua frente e um homem que está à suas costas e, enquanto o ônibus não
chega, João Carlos sonha: sonha com a praia, a loira, a morena, o mar,
o Sol, a cerveja e com um carro, um carro amarelo ovo conversível com
bancos de couro, ele tem dinheiro, ele pode ter e promete que semana que
vem comprará um carro e irá até a praia ver mulheres loiras e
morenas passarem por ele com um copo de cerveja gelada nas mãos. O ônibus
chega.
João
Carlos sai do ônibus e corre, corre até o prédio, enquanto o elevador
chega ele pega o jornal, enquanto abre o jornal sobe no elevador,
enquanto o elevador chega lê o caderno de economia e enquanto lê, várias
ordens o esperam e enquanto cumpre ordens João Carlos sonha com o mar.
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Horas: João Carlos sai para almoçar, mas enquanto sai para almoçar João
corre para o banco, precisa pagar as prestações da casa, da cama e do
som, precisa pagar o curso de inglês, francês e espanhol, precisar
terminar de quitar as mensalidades do curso básico de vendas, e na
fila, sonha. Sonha com as férias que precisa tirar, das festas que
precisa ir, das mulheres que precisa conhecer, da família que precisa
formar, das alegrias que precisa ter, enquanto sonha a fila anda e João
olha para o relógio e enquanto olha para o relógio conclui que não
dará tempo de almoçar.
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Horas: João Carlos volta, entra no prédio e enquanto entra pergunta se
tem recado e enquanto recebe a resposta vai ao elevador e enquanto sobe
até o terceiro andar João sonha com a vida que não tem. Enquanto
corre para lá e para cá João pensa que não tem comida em casa e que
precisa comprar, que precisa ter um gato ou um cachorro para não se
sentir tão só, que precisa regar as plantas que estão secas e
murchas, que precisa, de vez em quando olhar para o alto e admirar as
estrelas no céu. João vai embora e enquanto vai embora programa-se
para o dia seguinte, tudo a mesma coisa, só os sonhos são diferentes.
O ônibus está lotado, ele vai pendurado na porta, pede licença e não
adianta, então ele empurra e consegue ficar no meio do caminho, entre
duas mulheres. O ônibus está mais cheio do que pela manhã, mas, mesmo
assim João sonha com uma linda mulher que o amasse e sentisse tesão
por ele, que o estivesse esperando em casa, cheirosa, esperasse seu
marido com uma mesa farta, comida boa, muita massa e ela estivesse
vestida sensualmente e, logo após o jantar ela o levasse para o quarto
tirasse sua roupa e...
SPLAFT
... – João ficou excitado, a mulher da frente virou-lhe o tapa na
cara e ele não entendeu porque apanhou. Apanhou por sonhar???
João
indignadíssimo foi até a venda e enquanto foi à venda lembrou-se do
que tinha que comprar e enquanto ia comprando ia programando seu jantar
e enquanto programasse seu jantar iria sonhar. NÃO!!! NÃO IRIA SONHAR,
jamais sonharia novamente porque apanhou por sonhar. Mas não se deu
conta que sua vida dependia do sonho e quando decidiu não mais sonhar
caiu. Caiu no meio do supermercado e todos fizeram uma roda ao seu redor
para vê-lo morrer. E morreu.
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Horas: da manhã João Carlos foi enterrado porque ninguém tinha tempo
há perder. João estava lá, debaixo da terra e eis que alguém muito
misterioso escreveu em sua lápide:
“AQUI
JAZ UM HOMEM QUE MUITO TRABALHOU E... SONHOU.”
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