O Homem Sem Rosto


Antes de levantar da cama, passou a mão sobre o pequeno criado antigo de madeira envernizada. Tateou até que as mãos se encontrassem com uma carteira de cigarros, com o isqueiro brilhante e com o cinzeiro de louça azul.
Acendeu o cigarro e, com os olhos semi-abertos, pensou em tudo que o aguardava naquele dia. A fumaça incomodou a mulher que se virou para o outro lado resmungando e cobrindo a cabeça.
Só levantou após apagar o cigarro na beirada do cinzeiro. Pelo corredor ainda esbarrando nas paredes, foi até a cozinha e esquentou água para o café. Os olhos paralisados, talvez pelo sono, fixavam-se na ebulição da água. Acompanhava as pequenas bolhas que se formavam e seguia-as ao se desprenderem do fundo da caneca. A cada uma delas começou a associar uma das pequenas coisas que teria que fazer naquele dia. Nada muito importante, pensava. Compraria o jornal, passaria no banco e iria ao escritório, já avisara o encarregado do atraso, aquele homenzinho. Costumava contar aos colegas cada vez que encontrava no chefe semelhanças entre ele e os funcionários de repartição das crônicas do Nelson. Sabia que os outros o olhavam sem entender e apenas davam-lhe aquele sorriso de quem houve uma criança falando bobagens que embaraçam a mãe. O banco, que pavor das portas giratórias e dos seguranças olhando sempre desconfiados, pareço eu algum marginal?
O vapor subiu mais forte, avermelhando sua face. Sem entender por que, as bolhas que se estouravam na superfície o angustiaram. Desligou o fogo.
Pronto o café, foi à sala, sentou no sofá de tecido verde em frente à pequena janela. Dali viam-se muitos prédios, todos cinzas, todos iguais. Era a única casa em meio a tantos edifícios. Vamos que são horas.
Deixou a xícara na mesa de centro, cujas marcas levemente marrons e circulares revelavam-lhe o hábito matinal e o desleixo caseiro. Encarou as rodelas amarronzadas e pensou, nem sempre foi assim. Nos primeiros meses de casamento, a esposa, apesar de ainda não estar trabalhando, levantava-se junto com ele, fazia o café e sentava-se ao seu lado. Conversavam e eram carinhosos. Aqueles minutos em que estavam juntos eram para ele os melhores do dia. Uma manhã, apenas para ser carinhoso disse, você não precisa levantar comigo todos os dias, é cedo, dorme mais um pouco. Disse apenas por que queria ouvir o mesmo sentimento dela, estes são os melhores minutos do meu dia também. Mas, ao contrário, ela nunca mais se levantou cedo. E, como ela passou a trabalhar à noite, nunca mais fizeram uma refeição juntos.
Foi ao banheiro. Lavar o rosto, escovar os dentes, trocar de roupa, vamos que são horas. Viu o terno azul e um pouco amarrotado o aguardando na cadeira. No caminho do banheiro, o gosto do café, pouco adoçado, cria uma saliva espessa, anda mais rápido. À frente do espelho, não se encara. Abaixa-se rapidamente, abre a torneira e mergulha a cabeça no jato de água. As mãos em forma de concha se enchem e esfregam o rosto. Mais uma vez. Na terceira repetição do ato, um calor incomum percorre-lhe a face, a pele parece estar sendo lavada com água fervente e não com a gelada água da pia.
Com um gemido quase surdo, levanta a cabeça e se encara no espelho, forçando os olhos. A imagem embaçada que enxerga no reflexo o assusta ainda mais. Talvez seja a sujeira da noite nos olhos. Ao abaixar a cabeça, vê, estupefato, uma enorme mancha negra e borrada que lhe cobre as mãos ainda em concha. Esfrega fortemente as mãos mergulhadas novamente no jato da torneira que não parara de jorrar. Com o sabonete de cheiro acre, fricciona as palmas das mãos e os dedos, um por um.
Limpas as mãos, encara-se novamente. Sua imagem refletida no espelho ainda lhe parece embaçada. Fixa os olhos no reflexo de seus próprios olhos, mas não consegue distinguir-lhes a cor. Sua boca se entreabre, num misto de estupefação e estupidez. O rosto não é o dele. Como pode ser, o rosto é meu, pois responde ao meu comando, mas não se parece comigo. Como um autômato, leva as mãos ainda molhadas até o espelho, esfregando a superfície que o reflete. Seus olhos acompanham uma pequena gota de água que se desprende de seus dedos e escorre pelo reflexo de seu rosto desfigurado.
As sobrancelhas se foram, assim como as rugas de expressão na testa e em volta dos olhos. Estes, antes castanhos, exibiam agora uma cor negra e fosca que tomava toda a extensão das órbitas, tornando indefinível os limites das pupilas. O nariz perdera a forma aquilina anterior e se reduzira a uma leve protuberância, em cuja base se observavam os dois mínimos orifícios. Mais abaixo, os lábios, que continuavam descarnados como antes, apenas haviam perdido a cor avermelhada, volvendo-se em uma coloração semelhante à palidez da pele do rosto.
Passou as mãos pelo rosto, como para se certificar novamente de que aquele reflexo era seu. Assim, nesse momento, ainda teve lucidez para perceber que havia alterações na sua pele. Os dedos perderam as unhas e as mãos, totalmente lisas, não apresentavam nem as dobras dos artelhos, nem as chamadas impressões digitais. Parecia vestir uma luva de borracha ou ainda, uma roupa de látex que lhe encobria todo o corpo. Tentou agarrar a pele da face, buscando arrancar esta camada que a recobria, mas, sem as unhas, apenas sentiu o beliscar das pontas dos dedos afofados nas maçãs do rosto.
Que diabo acontece? Bem hoje que já ia atrasado. Sair assim mesmo? A perplexidade o abandona ao olhar o pequeno despertador, colocado sobre o espelho do banheiro para lhe regular as preguiças matinais. O banco está para abrir. A solução mais prática lhe pareceu continuar o dia como planejado e, ao chegar ao escritório, tentaria marcar uma consulta com um médico, para depois do expediente.
Olha, pela última vez, para aquele rosto estranho e, mais uma vez, não se reconhece. Vamos então ao que viemos. Passa a toalha vermelha levemente sobre a face. Rápido em direção à sala, veste o mesmo terno azul de ontem. Desistira de deixar as roupas no quarto. Não podia acender as luzes por causa da mulher e não gostava de se vestir no escuro desde que saíra, certa vez, com meias trocadas, causando grande comoção entre os colegas do escritório. Desenverga os ombros, bate a mão sobre o peito e sobre a coxa direita, verificando a presença da carteira e das chaves da porta e do portão, estão lá. Apanha o envelope com os documentos que deviam ser entregues ainda neste dia ao gerente do banco.
Passa pela porta, chega, dois passos depois, ao portão, destranca a fechadura e sai. Já na rua, o dia claro ofusca-lhe a visão e, talvez por isso, esquece o molho de chaves pendurado, ainda do lado de dentro, na fechadura do portão.
Segue rua acima, em direção à banca de jornal em que, todos os dias, faz o mesmo pedido, o Diário, por favor, enquanto tira a carteira de couro preto do bolso interno do paletó. Ao chegar, encara sorrindo o mesmo rapaz da mesma banca de todos os dias, sem imaginar o quanto pode ser estranho um sorriso que vem de uma boca sem lábios. Talvez por não reconhecer o freguês habitual, o rapaz abaixa a cabeça e continua a leitura. Fixa os olhos no Diário e procura a carteira no bolso interno do paletó. Ao abrir a divisória central, onde deveria estar seu dinheiro trocado, surpreende-se com o vazio. Claro, gastara ontem e como hoje ainda passaria no banco para tratar do financiamento, havia saído sem dinheiro. Olhou novamente para o rapaz da banca. Poderia pedir fiado até à tarde, afinal, passo aqui todas as manhãs. Encheu levemente o peito de ar para começar a falar e, timidamente, pedir o favor. Formula a sentença mentalmente: "Será que eu poderia levar o Diário e te pagar à tarde?" e fala.
Inicialmente não compreendeu o rosto de espanto do rapaz que o atendia diariamente, mas logo se deu conta de que nenhuma palavra compreensível saíra da sua boca, senão uma série de ruídos surdos e sofridos. Envergonhado ao extremo, colocou rapidamente as mãos sobre a boca ainda aberta, virou-se abruptamente e seguiu em direção à avenida. A coisa maldita, fosse o que fosse, que o assolara nesta manhã afetara a sua fala.
Talvez o médico não deva esperar. Mas não podia, de maneira nenhuma, deixar de passar no banco pela manhã. Enquanto caminhava, de cabeça baixa e com as mãos ainda tampando a boca sem lábios, deliberou ir ao banco assim mesmo. São só documentos que precisam ser entregues hoje, senão perderia o financiamento, já adiado várias vezes. Depois veria se iria trabalhar ou não.
Chegando à avenida, caminhou os cinco quarteirões que o separavam da agência bancária. Mais algumas vezes, enquanto caminhava, tentou proferir algumas palavras com as mãos na frente da boca. Apesar de formular as frases mentalmente com perfeição, sempre o mesmo grunhido o assustava.
Em frente ao banco, fitou indeciso a porta giratória e o segurança do lado de dentro, um homenzarrão de uniforme azul com um quepe pequeno que mal acompanhava o perímetro da cabeça, a arma no coldre, braços estendidos e olhar sonolento.
Parado ali já estava há alguns minutos, tentando decidir se valia à pena tentar entrar, quando finalmente o segurança se deu conta do estranho que o encarava. Tomou-se de um sobressalto e a mão automaticamente procurou o coldre do lado direito. O coração de ambos começou a bater mais aceleradamente. Subiu os dois degraus que o separavam da porta, mas, ao colocar os pés dentro do cubículo que o deveria levar para dentro do banco, a porta travou. Isso sempre me acontece. Reparou que o segurança dera dois passos para trás e falava pelo rádio. Deus, justo hoje. Pegou uma caneta no bolso do paletó e escreveu na face do envelope, favor entregar ao senhor José Carlos - Gerente. Estendia as mãos com o envelope em direção ao segurança que apenas balançava a imensa cabeça negativamente.
Uma pequena fila se formava na entrada do banco, todos de olhos baixos, talvez vexados pela situação que poderia se repetir com eles próprios, talvez apenas indiferentes ou desconfiados.
Sem outra opção, baixou ele também os olhos e voltou pelo caminho que o levara até ali. Deus, justo hoje. Poderia voltar para casa e explicar para a mulher os fatos e pedir que ela fosse até o banco enquanto ele iria ao médico. Realmente é o melhor a se fazer.
Nada mais restando a fazer, no caminho de volta refletia sobre sua vida. O que seria aquilo agora? Até a semana passada se orgulhava de ser saudável. Dias antes, vira alguns de seus colegas de trabalho, quase da mesma idade, com vários probleminhas de saúde e dizia, se não me sobra nenhuma felicidade, pelo menos não morro tão cedo. Já passara por muita coisa na sua vida, mas nada relativo à saúde. Nunca vivera um grande amor, nunca ganhara dinheiro, não tinha o trabalho de que gostava, nem podia dizer que tinha amigos, apenas alguns "colegas de trabalho", mas, pelo menos, tinha saúde. Mas agora. Nem isso.
Pensava nos dias de adolescente e se lembrava dos planos. Tivera grandes planos no passado, mas agora vegetava. Abrira mão de todos os grandes planos, às vezes, por coisas que nada lhe trouxeram em troca. Sem ressentimentos. Com o tempo, aprendi a não entrar em conflitos desnecessários. "Uma boiada para não entrar numa briga". Percebeu que o ditado soara estranho e sorriu com sua boca sem lábios.
Quando estes pensamentos terminaram, percebeu que estava de volta ao portão de casa. Batendo as mãos sobre a coxa direita, não sentiu o esperado volume das chaves. Contorce-se levemente e bate sobre a coxa esquerda. Nada. As chaves não estavam ali. Procurou pelos outros bolsos e ainda nada. Não encontrava as chaves e não se lembrava de as ter deixado em algum lugar. Paciência, toco a campainha.
Esperava recostado no portão, quando ouviu a esposa abrir a rótula da porta que servia de "olho mágico" e dizer, pois não?
Virou-se rapidamente e acenou para a mulher. Ela não conseguiu esconder o susto ao ver o rosto desafeiçoado que lhe sorria de uma forma, ao mesmo tempo, estúpida e medonha. Não poderia fazer idéia de que motivo levaria um homem tão estranho a tocar-lhe a campainha.
Ainda conseguiu formular a frase com toda a calma. Concentrou-se. Focalizou todas as suas forças nos músculos da boca e na língua. Inspirou levemente. Falou. Sou eu, Milene! Os grunhidos atroaram alto demais aterrorizando por completo a esposa que fechou com força a rótula da porta.
Alterou-se e começou a chutar o portão e, com as mãos, balançava as grades como um animal tentando fugir da jaula. Tentava gritar para chamar a atenção dela, mas só conseguia a estarrecer ainda mais.
Cansado e ensopado do suor proveniente do esforço sentou-se encostando as costas no portão de sua própria casa, a qual era impedido de retornar. Meu Deus, hoje não trabalho, serei descontado, será possível!
Ainda ofegante avistou a viatura policial que estacionava na sua calçada, apenas com as histéricas luzes de emergência brilhando, sem sirene.
O policial que saltou pela porta do passageiro dirigiu-se a ele, já com o cacetete à mão, questionando, o que faz ai? Isso não é lugar de sentar, vamos indo.
Olhou para cima e a figura do policial o amedrontou. Pensou em dizer que morava naquela casa, esquecera as chaves, estava doente, mas desistiu. Lembrou-se dos grunhidos e da impaciência das pessoas com desconhecidos, levantou-se e foi embora.
Agora sem ter mais nada, não tinha a sua saúde, nem sua casa, nem sua esposa. Nem ela o reconhecera. Certo que temos tido nossos problemas, mas nem me reconheceu. Ir agora para onde ? Já eram duas da tarde e ele não parara de andar desde as nove da manhã.
Caminhava lentamente, braços caídos e olhos baixos pelo centro da cidade. Viu um transeunte arremessar uma bituca de cigarro no chão. Foi até ela, olhou em volta. Ninguém olhava para ele. Abaixou-se, pegou a guimba e ainda conseguiu tirar dela duas profundas tragadas. Continuou a caminhar exausto.
Sentia seu corpo esvair-se no cansaço, que já não era só de tanto andar, mas de mais alguma coisa que não conseguia identificar. Mesmo assim, alguma coisa fazia com que ele continuasse a andar. Andar até não poder mais. Não era capaz de endireitar as costas, nem mesmo de levar as mãos para coçar as sobrancelhas, ou o local onde um dia elas estiveram.
Um pouco mais tarde, ainda sem nada entender, apenas com um vago sentimento de que muita coisa ainda estava por fazer, sentou-se na calçada. Não tinha mais força para andar, não saberia nem para onde mais poderia ir. Àquela hora o movimento de pessoas na calçada era muito grande, mesmo assim, esticou as pernas e os braços distenderam a musculatura deixando-se cair com as palmas lisas das mãos para cima.
Adormeceu, ali mesmo, na estreita calçada em que uma multidão de homens e mulheres disputam seus espaços, alheios àquele corpo já tão diminuído, estendido no caminho. Alguns levantavam o pé para passar por sobre as pernas, outros desviam sem olhar de que. Após alguns minutos, um sapato feminino menos atento pisa na dobra do joelho da calça. Neste instante, nada mais havia dentro dela. Era apenas uma calça azul estendida no chão e um paletó encostado na parede. Depois do primeiro, os transeuntes não mais desviaram, pisoteando, manchando e rasgando o tecido azul da calça. Depois de meia-hora, via-se apenas um trapo quase preto enrolado no meio-fio.
Um mendigo de aspecto repugnante, longas barbas que cresciam até o pescoço e cabelos desgrenhados, avistou o paletó apenas um pouco amarrotado largado junto à parede. Felicitou-se pela descoberta, vestiu o paletó, percorreu com as mãos imundas os bolsos. No bolso interno, uma carteira, tristemente vazia e um envelope com alguns papéis em branco. Lançou-os num bueiro e seguiu seu caminho, feliz de roupa nova.

J. Beluga

 

 

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