Olhos Negros

A imagem do nariz, que sempre lhe desagradara, aparece ainda mais grotesco refletido no espelho. Se pudesse daria um jeito. Uma afinada nas asas, talvez. Mas, vamos lá, que o relógio não perdoa a nossa vaidade. Ontem já o atrasou um fio branco na pouca barba que lhe cresce.

Sai do banheiro. O conhecido caminho até a cozinha parece maior que o de costume. O cheiro do café, normalmente agradável, hoje lhe esmaga o estômago, junto com alguma coisa que parece angústia, que vem não se sabe de onde. Hoje nada me vai.

Com beijo autômato, despede-se. Andando, ainda autômato, esbarra nas sombras que começam a aparecer. Desculpas, mas são só sombras.

Tantas vezes feito esse caminho, e hoje... estranho. Um enorme viaduto se lhe depara, onde antes havia, quase certeza, uma estrada plana. Ao primeiro passo que o colocaria no viaduto, estanca. Que teria feito de errado ? Mais sensato seria voltar. Se contasse à mulher, ela o desprezaria mais ainda. Fazendo o mesmo caminho, curto caminho, por quatorze anos e você se perde ?

Repassando o trajeto, nada descobre de diferente. A pequena subida na porta de casa, as duas quadras com as grandes casas azuis, a descida, a praça com os mendigos, o hospital e o viaduto. Mas antes não havia viaduto. Quase certeza. Pelo amor de Deus, são quatorze anos. Havia este viaduto ou não ? Quase certo que não. Pelo menos não deste tamanho, quase certo.

De onde estava, só poderia seguir. Voltar seria o fim. Então seguiu. Ao chegar exatamente no meio da grande construção uma cena o paralisa, novamente. Um menino, sem camisa, apesar do vento frio que corta o viaduto, magro, com as costelas quase a rasgar a fina camada de pele que as recobrem, espreita algo que se movimenta pelo peitoril de grades largas pintadas de azul do viaduto.

Abrindo o trajeto, em ângulo, para entender o que espreitava o menino, vê. Um enorme rato, que mal se movimenta de tão grande e gordo. Suas pequenas patas movem-se o mais rápido que podem, num esforço visível. Os pequeninos olhos pretos do repugnante animal viram-se para o menino ao mesmo tempo em que percebem a sua intenção.

O menino fecha o punho e prepara a alavanca do braço junto ao peito. Os pequenos olhos do rato desviam-se. Já é inútil suplicar ao garoto. As pequenas órbitas negras fixam agora nele, que gela. Estavam pedindo socorro. Como poderiam ? Mas a nítida impressão era a de um pedido pungente, doloroso e urgente. Mexa-se ! Salve-me !

O estômago vazio lhe trai os pés que vacilam, faz-se mais confusa a cena. O menino desfecha o golpe indeciso. Retesa os músculos mirrados do braço e, com a parte externa do punho fechado, atinge o rato que, sem lhe desviar os olhos pretos, recebe o golpe no dorso. A traseira dá um meio rodopio e o animal se segura ao parapeito, apenas com as patas dianteiras.

Os olhos fixos choram, imploram. Entreabre-se a boca. O menino vira-se e encara aquele homem parado, com a mão no peito, mas não percebe que está gelado e não vê que do canto de sua boca escorre um fio de imbecilidade. Aquela criança suja sorri um sorriso sem dentes e se volta para o rato, que ainda esperneia sem sucesso. Mais uma vez prepara a alavanca e, desta vez, o golpe vem certeiro. Tenta gritar, mas a voz já não sai. Fitando os olhos do animal  percebe, neste momento, que são idênticos aos seus. Estica os braços em direção do animal, cujas patas fraquejam, escoando o corpo enorme para fora do viaduto a uma altura imensa. Seu coração para de bater antes que o rato chegue ao chão.

 

J. Beluga 11-11-99

 

 

principal poesia prosa links contato