Os Doidos


O frio era intenso na madrugada do dia 13 de abril deste ano, o relógio , sem a menor piedade, marcava a quinta hora do dia. A madrugada estava fria e a curviana chicoteava o rosto dos homens e mulheres que apressados saiam de suas casas a caminho do trabalho. O ponto de ônibus já estava completamente habitado por dezenas de rostos anônimos, o cheiro dos desodorantes podia ser sentido já a metros de distancia e, entre este batalhão sem nome podíamos reconhecer facilmente a figura de Antonio Celestino, enfermeiro de inigualável eficácia que trabalhava no Juqueri (apelido dado ao hospital da Nova Acrópole). E ele, assim como os demais, enfrentava a garoa noturna na espera do ônibus que nunca chegava, carregava um ar serio e digno dos homens que cumprem seu papel social, mas apesar da sua aparência de tranqüilidade, Antonio deixava transparecer que uma pulga o mordiscava atrás da orelha congelada pelo frio da madrugada, é que ele precisava recadastrar seu CPF e justificar junto à justiça eleitoral sua ausência nas eleições passadas.
- Puta! Pensei que o busão não vinha mais! Resmungava ele inconformado com a demora do coletivo ao motorista de bigodes que mascava um palito no canto da boca e exalava um forte cheiro de cachaça.
Celestino passou a catraca superfaturada do coletivo e alojou-se num cantinho que fica logo após a roleta era o melhor canto do ônibus pois ali dava para encostar-se ao vidro que fica logo atrás da catraca ao seu lado uma moça de vestidinho azul, segurava sua sacola que trazia estampada a marca de uma loja de perfumes e, toda cheia de si, olhava fixamente através da janela. O motorista andava rápido nas curvas, os passageiros debatiam-se uns nos outros como se fossem animais transportados para o matadouro, mas nada, a não ser o CPF, tirava o sorriso do rosto de Celestino, ele estava feliz por sentir-se um dito cidadão social, já havia ate conseguido comprar uma casa na caixa econômica federal. Mas de repente um cheiro horrível alastrou-se pelo ônibus, ele contorcia o nariz esfregava os olhos, abria a janela e resmungava um milhão de pragas ao infeliz que tinha feito aquilo. A se ele colocasse as mãos no desgraçado que peidou no ônibus! A partir daí a viagem seguiu monótona e de quando em quando Antonio dava um cochilo, em pé mesmo e, se não fossem as curvas violentas que o motorista fazia ele poderia ate roncar.
E a viagem que deveria durar quarenta minutos, levou uma hora e quarenta, correndo desesperado com seu atraso Antonio não parou no boteco do S. Matias para tomar seu café da manha e enquanto corria feito louco em direção ao trabalho lembrava do CPF e da justiça eleitoral e do desgraçado que peidou no ônibus.
- Muito bem Antonio chegou cedo para hora do almoço! Exclamava ironicamente o diretor do hospital.
Antes de poder dar satisfações foi retalhado por novo golpe baixo do diretor.
- E não tente justificar sua incompetência colocando a culpa no transito! Acorde mais cedo da próxima vez.
Cabisbaixo foi ate o marcador de ponto e bateu seu cartão por ser seu terceiro atraso na semana Celestino sabia que não iria receber aquele dia, mas mesmo assim colocou sua marmita para esquentar e seguiu para o pátio onde os doidos deveriam estar tomando o sol da manha.
Era uma área grande e gramada e, os doidos, eram doidos mesmo. Um lambia o chão, outro jurava ser Deus e um outro que jurava que o diabo morava nas suas meias. Enfim cada louco com sua mania, a verdade é que todos ficavam ali; correndo, pulando, gritando e, quando queriam comer, comiam, quando queriam evacuar os intestinos evacuavam, não pediam permissão e não se importavam com regras, eram doidos e isso os bastava. A hora do almoço era dividida, enquanto uns alimentavam os doidos os outros almoçavam. Antonio ficou com o primeiro grupo, portanto saiu para o refeitório, ao abrir sua marmita a desilusão:
-Nossa minha comida azedou! Exclamou ele inconformado.
Os amigos riram, mas riram muito, um sorriso burlesco cheio de maldade e incompaixão. Antonio se retirou foi para junto dos outros a fim de ajudar na alimentação dos doidos. José Ronaldo, aquele que jurava ser Deus, estava comendo uma maça quando ouviu o estômago de Celestino roncar. José Ronaldo sabe Deus porque motivo esticou a mão para Antonio e ofereceu-lhe a maça, Celestino se fez de difícil mas acabou aceitando o presente. Ao morder a fruta, outro susto, José Ronaldo deu um grito de alegria que só os doidos conseguem fazer e, seguido pelos demais começou a dar cambalhotas, era visível que não estavam satirizando a situação, muito pelo contrario eles gritavam e rolavam de alegria, e Antonio ficou sem compreender o acontecido.
Na hora de ir embora Antonio levou os malucos ate o microônibus, certificou-se de que estavam bem acomodados, foi ate o marcador, bateu seu ponto e seguiu em direção ao ponto de ônibus.
Chegou tarde em seu bairro, mais de 21:30, há esta hora os doidos já devem estar tomando os seus calmantes para poderem dormir. Antonio, como de costume, entra no boteco do S. Mane toma meia garrafa de cachaça e vai para casa dormir que as horas nunca se atrasam e o amanhã já vem chegando.

 

Sidarta Batista da Silva

São Paulo, 02 de agosto de 2001.

 

 

 

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