Poesia Abstrata

 

Uma bela criança sentada
À espera do prato de comida que não vem
Uma magra senhora sentada
À espera do abrigo que não tem

Um sisudo senhor à espreita
Duma gota d'água em solo
Um cabo de enxada lascado
No caminho árido
donde se espixa o lagarto
Um horizonte vermelho ressonado
Dum fervor hostil, pra noite enluarada
Um choro-agouro rechaçado, dor
Da esperança castigada

O ecoar da araponga
Em meio à caatinga,
Som único de vida
À procura da calma,
do centro dum homem sofrido
homem-d'água
à procura de um momento de saliva.


Ivan Reis

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