|
Recolhimento
Gisela
lia um livro, Urbano lia o jornal, as televisões e
os rádios foram esquecidos, os telefones dormiam e a
campainha estava desplugada.
A luminaria da sala clareava o livro de Gisela, o abajur
do quarto iluminava o jornal de Urbano, o resto da casa
era um breu só.
Gisela esquecia o mundo na sala, Urbano refletia o mundo
no quarto, e o relógio deu o sinal de dormir.
Gisela sorriu para o livro e virou a página, Urbano coçou
a cabeça e ajeitou o jornal.
Ouviu-se o som de carro, depois de passos, depois do
portão, depois de passos, depois do carro, depois de
passos, depois do portão, depois de passos: a vizinha
chegou, outro sinal de dormir... essas casas germinadas
são um problema.
Gisela virou o pulso esquerdo e confirmou o sinal de
dormir vindo de fora, mas esticou as pernas e voltou ao
romance, Urbano comprimiu as sobrancelhas, com os óculos
ainda presos a economia... os juros meu Deus, os juros...
Gisela releu três parágrafos e suspirou, Urbano
leu a
declaração do ministro da fazenda e bufou.
O relógio terminou de dar outra volta e avisou: hora
de
dormir.
O livro foi repousar na bolsa. Gisela foi se preparar
para dormir.
O jornal dobrado foi envelhecer debaixo da cama.
Urbano esperou por Gisela, com as costas apoiadas à
cabeceira da cama, vendo se ficara dúvidas do que leu
Gisela logo veio.
Esticaram o corpo um bem pertinho do outro e sorriram.
Antes que Gisela começasse a comentar o livro, Urbano
se
antecipou com suas dúvidas do jornal, afinal Gisela era
economista. Urbano era apenas um escritor, um homem de
letras, que acabou de escrever seu terceiro romance.
|