Recriando a Realidade

Os afazeres esperavam por Renata e, naquela Segunda-
feira, a esperariam por um bom tempo. Apesar de ter
acordado às 6h, de já ter preparado e tomado o café da
manhã, de já ter levado todas as roupas para a
lavanderia, inclusive as das camas, não se sentia nada
disposta para a faxina. Aliás, Renata detestava esse lado
doméstico da sua vida, nunca conseguiu dar conta do
serviço de casa e do seu trabalho externo.
Como era o seu primeiro dia de férias e passaria vinte
dias em casa, teria de ver sua vida inteiramente tomada
pelos serviços domésticos. Nestes vinte dias não teria
desculpas para que a casa não ficasse em ordem, limpa e
perfumada. Imenso desgaste para Renata. A sua sorte era
ter um marido que não se importava se a casa estava bem
arrumada ou não e as filhas muito menos. Quem se
incomodava mesmo com a casa era Renata, que apesar do
enfado, queria que brilhasse mais do que a da sua mãe.
Mas, Renata não era feita do mesmo material que a mãe.
Feliz se sentiria se tivesse condições de manter uma
empregada. Mais feliz ficaria se ao invés de ser uma
reles assistente administrativa mal remunerada, fosse,
sei lá.. ah!.. sei lá... só Deus sabe.
Aproveitou que estava só, ficaria boa parte do dia, pegou
um caderno e uma caneta, colocou-os na mesinha de centro
da sala, sentou-se no chão, acendeu o cigarro e pôs-se a
rabiscar.
Sem saber o por quê veio a sua mente trechos de romances
do período realista: O Primo Basílio, Dom Casmurro,
Madame Bovary... lembrou-se de Luisa, depois de Capitu,
depois de Ema... imagine ter um caso... riu-se de si, ela
que nem conseguia pronunciar um palavrão, nem quando
estava só... por isso rabiscava, com letras garrafais:
palavras obscenas.
E se ria. Encheu a folha. As vezes Renata sentia essa
necessidade de fazer alguma arte. Terminou de fumar o
cigarro e apoiou-se ao sofá. Observou a sua sala como se
fosse uma visita, daquelas que ficam reparando em todos
os detalhes. Nossa que tapete sujo! Não adianta usar como
desculpa as filhas, porque já são bem crescidas, deveriam
limpá-lo. As paredes também estão sujas, isso porque
pintaram de amarelinho e nem faz muito tempo, imagine se
fosse branca, deveriam pintá-la de novo, ou pelo menos
lavá-la. A dona desta casa não é nada zelosa.
Renata levantou-se, foi até a estante e passou o dedo.
Nossa! tem pó, será que ninguém aqui sabe que precisa de
tirar pó dos móveis todos os dias. Gente, aqui é São
Paulo! Poluição para todo lado, se bobear tem de tirar pó
dos móveis duas vezes por dia.
Sentou-se no sofá e fez cara de nojo. Que sofá mais
encardido! Os donos desta casa não sabem que é possível
lavar os sofás, existem empresas que fazem este tipo de
serviço.
Levantou-se e pôs-se a observar o lustre. Avisem a dona
da casa que é possível tirar essas folhas do lustre para
lavar, daqui uns dias toda a luz ficará retida no lustre.
"Meu Deus quanto serviço!"
Voltou ao caderno e rabiscou mais um pouco, novamente
Luisa, Capitu e Ema invadiram sua mente. Acendeu outro
cigarro e correu até o quartinho dos fundos da casa, foi
atrás de refugio. Encontrou. Os livros adormecidos numa
caixa: as coleções do Eça e Machado, um Flaubert, três
Kafka, dois Graciliano, um Maupassant, um Dostoievisk, um
Tolstói, um Vínicius, um Fernando Pessoa, a lírica de
Camões e os contos de Mansfield e os de Tchecov impressos
em folhas, um Woolf...e apostilas, apostilas e mais
apostilas dos dois anos que cursou Letras.
Se não tivesse abandonado o curso devido uma gravidez não
planejada e o casamento precipitado, quantas outras
caixas de livros e apostilas não teriam aqui? No lugar
delas vieram os filhos.
"Pensei que desse para ter filhos e livros... se tivesse
planejado tudo melhor..."
Sentada no chão ela pegava os livros lia trechos ao
acaso, suspirava em ais, ria, apertava-os ao peito, lia
diálogos em voz alta diferenciando uma personagem da
outra em graves e agudos; depois em pé recitou poemas
como se fossem de sua autoria e estivesse num palco.
Olhou os livros espalhados e reparou que eles estavam
conservados, limpos, novos. E as apostilas todas
organizadas em pastas. Abriu a outra caixa de livros. E
era a mesma coisa: a mesma ordem, o mesmo capricho... era
um pedaço da sua vida que estava ali, de planos, de
juventude...
De repente, deu se conta de que na prateleira ao lado das
caixas tinha um grande espaço vago e só depois mais a
frente vinham outros objetos ali esquecidos e
desprotegidos.
"Incrível! Parece que já deixamos até o espaço para
colocar as outras caixas que ficaram faltando... caixas?!
Por que caixas? Não, nada do que é meu ficará
encaixotado. Ainda bem que não trocamos a estante por um
rack. "
Renata voltou a sala, acendeu outro cigarro. Sim, os
livros caberiam na estante. Era uma estante antiga e
grande que ela comprou quando se casou. Escolheu esta
justamente para cobri-la de livros, mas como eles vieram
da casa de seus pais assim foram guardados no quartinho
dos fundos. Dá para contar nos dedos as vezes em que
foram mexidos.
Pensou que não foi nada mal tê-los guardado, assim eles
ficaram protegidos do tempo, da poeira, da bagunça...
Colocaria os livros na estante, sim!
O marido teria de ajudá-la a manter uma faxineira, e não
só, ajudar a pagar a faculdade. Renata percebeu que suas
férias do serviço seriam muito bem aproveitas: com muito
estudo; principalmente, porque depois de 18 anos sem
pegar num livro para estudar e mais os seus quase 40 anos
de idade, encontraria no início muita dificuldade, teria
só quatro meses para estudar para o vestibular.
Renata sorria de si e para si, que achado maravilhoso foi
esse.
Hoje mesmo comunicaria a família sua decisão, nada a
faria voltar atrás. Caso o seu marido não a apoiasse, com
o seu salário, poderia manter a faculdade, os livros e a
condução. A casa? Bem que as filhas poderiam colaborar
mantendo pelo menos a sala sempre limpa e os livros sem
um pozinho sequer, assim tudo estaria bem.
Foi por se ver grávida três vezes que Renata não retornou
aos estudos. Como um bebezinho poderia ficar o dia todo e
também a noite sem a mãe? Elas me devem isso e muito
mais!
E Renata se riu.
Talvez não dê para pagar uma faxineira todas as semanas,
mas de quinze e quinze dias será bem viável. Se agora o
serviço doméstico já é um fardo muito pesado para
carregar, depois com os estudos será muito pior.
"Dane-se"
Com muita disposição Renata começou a limpar a sala.
Limpou o chão, as paredes, a vidraça, os sofás, o lustre.
A estante nem se fala, tirou todos os bibelôs e todas as
fotos, que foram para caixas, limpou por dentro e por
fora, deu brilho na estante e tudo, coisa que não fazia
há um bom tempo. A sala estava um brilho só, pronta para
receber a visita que fosse. Então, era só buscar os
livros.
Não! Renata recuou. O pó do quintal e dos outros cômodos
poderiam entrar na sala, antes ela lavou a cozinha, lavou
o quintal, varreu e passou pano úmido nos quatros, tirou
pó de todos os outros móveis da casa, limpou vidraças,
limpou as paredes. Renata faxinou feito uma louca, sem
entender porque Luísa, Capitu e Ema insistiam em invadir
a sua mente.
Só à noite depois de ter comunicado às três filhas
adolescentes e ao marido suas decisões, foi Renata
colocar os livros na estante sem a ajuda de ninguém.


Lilian Regiane do Carmo

 

 

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