RISCOS DO SABER

 

Certo dia, ao acordar às nove horas da manhã para o meu sagrado descanso, estava otimista no seio da minha família, sentindo-me mutuamente protegido e protetor. O mundo se restringia ao meu ambiente familiar. Ao meu lado, ainda dormiam a minha esposa e minha filha pequena que por vezes, no meio da noite, sai do seu quarto e, mecanicamente, galga o nosso colchão para acordar feliz com a gente. Tomei o controle remoto e liguei a televisão em volume baixo para não quebrar a serenidade do lar. Por azar, era um programa jornalístico que falava de aumento de combustíveis. Justifica-se o aumento pela especulação da eminência de guerra.
- Não! Hoje, de jeito nenhum, eu quero me irritar! E mudei rapidamente de canal à procura de entretenimento e nesse, também falava-se da certeza de uma guerra; da chantagem dos E.U.A. sobre a Turquia para que cedessem seu território para a instalação de bases militares americanas; de homens-bomba que se sacrificariam em defesa da soberania de seu país e etc.etc. e tal. Desliguei o aparelho televisor, mas não pude evitar um momento de reflexão. Meu Deus! o poder... o petróleo...!
Levantei-me da cama e já levei o dedo mínimo do pé ao criado-mudo. O grito, inevitável, acordou de vez a família. Tudo bem! Isso acontece... Tocou o telefone e enquanto eu o atendia, visualizei uma conta atrasada que, mais uma vez, esqueci a data de pagamento.
- Alô! Como? Não é possível! Meu irmão acabava de ser assaltado em Mauá. Saí do telefone e liguei o rádio procurando relaxar, mas só se falava no caos do Rio de Janeiro; o exército nas ruas; um professor de Inglês fuzilado pela polícia por não obedecer à ordem de parar o seu veículo... E o direito de fuga, que até mesmo o bandido tem garantido pelo Código Penal? Bom, desliguei também esse aparelho e fui à Internet. Fechei os olhos às manchetes de desgraça e fui direto à caixa de e-mails e o primeiro era de um amigo advogado que me enviava um texto de sua autoria. Era clara a sua indignação contra a hipocrisia da nossa sociedade e a deturpação da democracia enquanto prática. E assim era o texto:
“Você já se perguntou por quê a justiça é lenta; por quê a saúde está na UTI; por quê o sistema prisional é falho; por quê a corrupção grassa em todas as esferas do poder, etc? O Brasil, penso, não aprendeu nada com as civilizações grega e romana. A civilização ocidental, principalmente, aprendeu muito com as antigas civilizações greco-romanas. E as nossas instituições foram nelas inspiradas.
O país, parece não ter um futuro auspicioso, porque até a sua democracia não é, de fato, democracia, e sim uma ditadura com um verniz democrático. Aqui fala-se muito em democracia, praticá-la é outra coisa. Quem conhece um pouquinho de história sabe que a 2400 anos, na Grécia, os cidadãos discutiam os problemas da cidade (pólis) nas praças (ágora), isto era um exemplo de democracia, incipiente, é claro.
Recentemente, leu-se nos jornais que um prefeito paulista emitiu um decreto, ou melhor, um ucasse, impedindo qualquer manifestação pública no paço municipal, sob a desculpa de que o barulho atrapalha o trabalho dos funcionários. Ora, isso é um absurdo! É um exemplo cabal de antidemocracia, perpetrada por pessoas que detêm o poder e não sabem o que fazer com ele. Fazem tudo, menos usá-lo em favor do povo. Em síntese, o Brasil tem cinco séculos, mas infelizmente, está atrasado em dois mil e quatrocentos anos”.
C. Oliveira.


Desconectei. Peguei um antigo bolachão, a muito esquecido na estante, coloquei-o no velho aparelho toca-discos e, a mensagem melódica era condizente com a realidade daquele momento: “Ô SEU MOÇO / DO DISCO VOADOR / ME LEVE COM VOCÊ / PRA ONDE VOCÊ FOR / Ô SEU MOÇO / MAS NÃO ME DEIXE AQUI / ENQUANTO EU SEI QUE TEM / TANTA ESTRELA POR AÍ”

Joaquim Barros

 

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