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Tião
Sebastião
não queria que chovesse, não que ele preferisse
o sol, amava a chuva do mesmo modo, quem sabe até mais
a chuva. Mas para quem mora na rua a chuva não é
tão bonita como para quem tem uma casa.
Tião não havia comido nada desde manhã,
mas uma lata de lixo lhe encheu os olhos de esperança:
um pão. Era só um pão, seria o jantar do
triste homem. Depois de rezar agradecendo pelo alimento, comeu
o pão, doce, ou seria salgado? Tião não
sabia dizer, sentia náuseas, certamente era algum doce
que encostara no pão dentro do lixo. Agora, quase sem
fome, ele procurava um lugar para passar mais uma noite, e numa
vitrine da rua horizonte, viu seu rosto barbudo e sujo e sentiu
medo de si mesmo.
11:20, e o sono era cada vez maior, sentia vontade descansar
seu corpo frágil numa cama macia...Ah se tivesse uma
cama. Esperou o sinal fechar e atravessou a rua que dava para
uma praça, sentou-se num banco e tirou do saco um lenço
azul,azul,azul, Tião gostava de azul. Ali ele resolveu
passar a noite. Sentiu correr pela sua face uma gota gelada,
abriu os olhos...chovia, chovia muito, e sua roupa não
o agasalhava o suficiente. As prostitutas haviam ido embora,
os vendedores ambulantes abandonaram a praça e Tião
permanecia imóvel, deitado no banco que lhe servia de
cama. Ergueu as mão para o céu e enquanto as lágrimas
se misturavam com a chuva, Tião sussurrou: Ah, chuva,
eu gosto muito de chuva.
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