Um Lago Espelhado


Um lago espelhado, escuro e sereno. O vento com
preguiça de se mover e o sol a pino filtrado pelas
folhas da árvores da mata densa e fechada. O cheiro da
terra orvalhada e o som de pássaros fundido ao da água
que se debate nas pedras bem à minha frente, dando-me a
imagem de um quadro surreal e fantástico. Não exito em
senti-la...em tocar a paisagem que fora pincelada em
aquarela suave, a escoamento de rios e a rebuliços da
terra, por centenas...talvez milhares de anos. A água
fria estremece em choque com meu corpo quente e a
natureza se mistura a mim, instigando-me para um
mergulho na piscina cristalina, transparente e
funda...às profundezas e virar a sereia dos teus
sonhos...te enfeitiçar com meu canto...de água doce
sim, como os beijos que guardo pra ti.
Como que hipnotizada pela natureza inebriante, caminho
lentamente em direção ao lago, sentindo aos poucos
grudar ao meu corpo o tecido fino e branco do vestido
de algodão, meu único véu d e moralismo...minha manta
de pudor. Contraste entre o que se é e aquilo que se
deve ser. Por isso vim para cá...liberdade...apresento-
lhe meu eu...meu interior agora, despido, puro,
essencial, in natura...estou Iara, mãe d'água, límpida,
molhada e transparente...e te convido para juntar-se a
mim...basta que feche os olhos e me dê a sua mão. Um
elfo, uma fada...um homem e uma mulher, de mãos dadas,
corpos nus e olhos vestidos de amor, na plenitude e na
simplicidade de seu significado...em toda gama de
sentimentos e sensações que o envolvem...sem medos, sem
cobranças...consegue libertar a tua mente das amarras
que a ditadura da realidade nos impõe? Tenta,
homem...olha pra dentro de ti e enxerga o teu próprio
encantamento, a tua divindade e a tua capacidade de
transpor regras, matéria, tempo e espaço se é para o
bem...entrega-te às emoções sem reservas e permite
assim uma convivência maior com aquilo a que chamam de
felicidade. São momentos apenas, instantes imersos no
espaço dos quais se apoderam aqueles que ousam doarem-
se aos próprios sentidos, à intuição que pede
incessantemente passagem e ao impulso, o eterno rival
do destino...
Vem...fecha os olhos e abre-te para mim...sente as
águas inundarem-te a boca, envolverem teu sexo e
refrescarem a tua pele...sou lago, água viva, cercando-
te por todos os lados, todos os membros, gotejando
sobre teusa cabelos...me liquefaço, me derreto pelo teu
prazer...gelada, quente...noutro instante me condenso e
tomo a forma de mulher, fêmea e feminina...selvagem e
faminta, te abraçando e te lançando à água do lago para
mergulharmos juntos num beijo cheio de vida, de
paixão...sente o calor do meu corpo roçando no teu e
deslizando, carne sobre carne, como se os espíritos
quisessem se tocar...evaporo e sou cachoeira,
massageando teus ombros, caindo densa e relaxante sobre
teus ombros, escorrendo por tuas costas e me misturando
ao teu redor, contemplando cada pêlo, cada tom, cada
cor, cada aroma e cada som que você emite. ..minha
língua é peixe, que se debate e desliza por todo
vc...abre os olhos: sou mulher na tua frente, tua
atroz, tua atrás...que te lambe, te chupa, te acaricia
e te devora, devolvendo-te para o mundo como se
nascesse de novo, saindo por entre minhas pernas...te
olhando em teus olhos, segura a ti pelos braços em
volta do teu pescoço e pelas coxas que dançam ao redor
do teu quadril...
Sai da margem, homem...bruxo...elfo...pra se afundar em
mim, tem que se afogar neste vai-vém lento e
sucessivo...tem que se dispor a ficar sem o ar da Terra
pelo espaço de um suspiro, e tirá-lo da minha
boca...tem que aguçar os ouvidos para os pedidos que
são ditos em silêncio...deixar a sensibilidade traduzir
nos gestos o que o corpo e a alma precisam...vem, vem
pro fundo...me invade como um deus, como um bicho, como
um anjo que eu quero te ver explodir em cores e
perfumes...em sabores e em luz, e deixar na teu
espírito e na tua pele o cheiro das flores...

Andréia K.

 

 

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