Vernáculos

 

Deus criou o mundo com palavras, 
Mas não conheço na história
Um mudo mártir
Um único homem que tenha sido executado
Por se calar.
O que nos mata são as palavras
Que saem como flechas da nossa boca
Às vezes certeiras ao alvo, às vezes perdidas
Às vezes tardias.
São elas que nos levam até onde a gente não pode estar
Para mundos inusitados
Que nos servem de veículo, de disco voador
O martelo de um poeta
O avião do aviador
A lança afiada dos inconformados
A bala sem rumo dos desequilibrados.
São também caixões que enterram amores passados
Um dia possíveis, afastados 
por erros imprevisíveis.
Palavras são sentenças, uma para cada cabeça
Cada uma, uma conseqüência.
Selam um compromisso, uma promessa
Decretam dor, anunciam ausência.
Quase tudo o que se sente pode ser transcrito
Mas se corre o risco de dizer
O que jamais é pra ser dito.
As palavras também são mensageiras de felicidade
Vazando dos poros, regadas a sentimento
Na maior simplicidade.
Pode ser uma frase extensa, ou uma palavrinha
Rabiscada num papel de pão, como essa:
“saudades”.
Servem de escudo para encorajar gestos,
Mobilizar multidões ao redor de bons ideais ou
funestos
E muito cuidado ao empregá-las:
Se for feito mal uso, viram uma mala pesada
Calvário da saliva envenenada.
Mas não te aconselho que se cale.
Observe melhor...lance um olhar justo
No trajeto da humanidade
Em muitas passagens encontramos
O silêncio conivente da calamidade.
E te digo mais...
Nenhum rei foi mudo
E não houve um herói que não tenha expelido
Ao menos um gemido
Pelo qual se traduzem mil palavras.
E quando duas almas estão afastadas
Pela distância, impossibilitadas
De num olhar comunicarem com fidelidade a emoção,
Os amantes, os amigos, o alívio dos errantes
Não é uma lembrança ou uma canção:
São palavras...as veias do meu coração.

 

 

Andréia K.

 

 

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