Vou te Falar de Amor

 

Deitada na cama...
o corpo nu...esticado sobre o cobertor
que me aquece, não me dá calor.
Lápis e papel em punho
pra fazer a minha voz
chegar até você.
Há tempos meus dedos têm saliva
e seus toques rápidos e secos, 
são a minha língua batendo nos dentes,
declamando ao pé do teu ouvido
os versos que te fiz 
nas noites mal dormidas,
nas tardes esquecidas, 
nas manhãs de juventude
que perdi.
Saudade, meu bem
é espinho,
o solavanco que me tira o sono
e me desperta pra madrugada
fria e solitária
ao som de uma música qualquer, que ecoa
mais alto no meu peito vazio
que no meu quarto sem você.
O moribundo, infeliz
também chora a dor da ausência, do cadê
de alguém que se foi e eu,
que posso fazer senão
oferecer um canto na minha cama gelada, 
solidária à mais um enfermo de amor.
Eu vou te falar desta doença, escute bem:
Os sintomas são claros e diversos: brilho no olhar,
riso frouxo, pernas bambas, boca seca, palpitações.
Se aloja no coração e o estado agrava 
quando te domina a mente,
pouco a pouco dirigindo teus gestos e sonhos 
em direção ao ser amado.
Sim, porque esta doença tem um objeto: o alvo do amor.
Arrepios, calafrios. 
Se tiveres muita sorte, o teu alvo será também contaminado
e um dia, poderão sofrer juntos da febre, molhando lençóis de suor, 
e sussurrar...e delirar...e ter convulsões....
convalescer juntos sobre um leito,
descobrindo num ímpeto ou lentamente, 
o alívio que se sente quando os corpos 
de dois doentes de amor se fundem num único! 
Está então consumada a loucura,
assinada a sentença de perdição. 
Por esses dois, só resta encomendar a alma 
que já se perdeu no fogo, à piedade de Deus.
É fatal: não tem remédio, nem vacina, nem cura. 
Chamam “química” as reações. 
O contato da pele de dois doentes de amor
dá choque, do olhar tira o chão, 
dos lábios esvazia os pulmões. 
Se ele te pega, teu sangue corre nas veias
numa velocidade alucinante e irriga teus órgãos
com o nome da pessoa amada. E ela pulsa em ti, 
em cada instante da tua vida.
Fulminante e generalizado, contamina célula a célula, 
e às vezes não cabe no corpo, transbordando,
de alegria ou tristeza,
e escorre salgado pelo teu rosto, vazando dos olhos.
Vicia. É tóxico. Dá o falso poder de controlar o tempo 
e as leis da natureza. Tu ficas besta, todo-poderoso
se é correspondido: não tem noite nem dia,
lua e sol obedecem as tuas ordens,
horas correm ou engatinham de acordo com a tua conveniência,
segundos podem ser a eternidade,
vida e morte são estados de espírito.
Não morre, mas mata. 
Não a morte que sucumbe, mas o desmaio
d qual se ressuscita com um beijo na boca
ou um olhar de perdão.
Quem ama fica cansado demais...é um jogo 
incessante de nascer e morrer
submetido aos cuidados de quem é amado.
Amar até a exaustão,
e sem parar.
E o cansaço de quem ama é recompensado
com um dom divino,
o mais almejado: a imortalidade.
Quem ama não esquece,
nem é esquecido.

 

 

Andréia K.

 

 

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